Vêm aí as GICs?

 

Encapsulado numa conservadora magnetosfera, tenho-me sentido escudado por uma imunidade que, afinal, se mostra inquietantemente vulnerável.

 

De facto, sempre tive como sólida a tradicional noção de que as correntes geomagneticamente induzidas (GICs no seu acrónimo inglês) eram fenómenos praticamente exclusivos de zonas de altas latitudes – tipo exoterismos de nórdicos, canadianos e russos que, a troco de belíssimas auroras boreais, levavam com elas em cima.

 

Ocorre que, embora eu já soubesse que devido ao deslocamento das placas tectónicas as minhas latitudes litosféricas estão em lenta mas permanente alteração - 50 a 100 mm por ano segundo alguns, sem contar com o impacto no arredondamento da Terra que a NASA prevê quando o reservatório da barragem das Três-Gargantas estiver cheiinho com 40km3 de água-, a muito mediatizada alteração posicional do eixo terrestre e o incrível deslocamento de algumas cidades (3 metros em Concepcion p.e.) na sequência do recente terramoto no Chile me instigaram a revisitar a suposta quasi-imobilidade das baixas latitudes em que vivo (25°58’S).

 

Quem sabe se, um dia destes, conjugando todos estes reposicionamentos de massas terrestres com as sempre dinâmicas alterações do campo magnético da Terra, a minha latitude face aos ventos solares não virá a dar-me direito a uma aurora austral?

 

Contudo, ciente de que nisto de alterações climáticas não há almoços grátis para ninguém, procurei precaver-me de modo a que, se porventura me chegar uma aurora, o meu observatório não venha a estar sujeito a eventuais blackouts provocados por uma qualquer manhosa corrente geomagneticamente induzida (GIC).

 

E foi assim que, tempos depois do início do ciclo solar # 24 - sinalizado a 4 de Janeiro de 2008 pelo aparecimento de uma mancha solar de polaridade invertida numa zona de altas latitudes do Sol (sunspot 981 a 30°N)-, refinei a minha pesquisa sobre GICs e constatei que, afinal, elas andam muito mais perto do que eu julgava.

 

Na verdade, mesmo nestas minhas baixas latitudes da Electricidade em Moçambique, e apesar de os especialistas em Clima Espacial vaticinarem uma intensidade abaixo do normal para este novo ciclo solar de 11-anos, tudo indica que, desde logo, por aqui não devem ser subestimados os fluxos invulgarmente altos de partículas ionizantes que, em crescendo, atingirão o seu pico em Maio de 2013.

 

E porque o possível impacto destes bombardeamentos iónicos não se restringe apenas às redes eléctricas, já que várias outras cruciais tecnologias – satélites de navegação, televisão e comunicações, ductos de óleo e gás, sistemas ferroviários p.e. – mostram equivalente susceptibilidade ao fenómeno, talvez valha a pena que a prontidão preventiva face às correntes geomagneticamente induzidas seja planeada multidisciplinarmente num pool dos principais sistemas (empresas) afectáveis – no mínimo, sempre se expandia mais transversalmente a percepção dos vários impactos do Clima Espacial e, en passant, aproveitava-se a oportunidade para ir mitigando os congénitos problemas de aterramentos eléctricos que vão afligindo a maioria dos nossos sistemas.

 

Mas, porque me interessa especialmente a susceptância GIC nos sistemas eléctricos, é dela que vos darei conta na página seguinte.

 

josé lopes

 

março 2010

 

ps – o meu interesse pelas Correntes Geomagneticamente Induzidas foi despertado há sensivelmente 7 anos pelo grande blackout em New York (14 Agosto 2003) - ver xitizap # 6 com várias informações sobre o tema.

 

GICs

Correntes Geomagneticamente Induzidas

 

Quando o campo magnético da Terra captura as partículas ionizadas transportadas pelos ventos solares, Correntes de Indução Geomagnéticas  podem fluir através dos sistemas eléctricos, entrando e saindo pelos muitos pontos de aterramento das redes de transmissão. Estas GICs (GIC no seu acrónimo em inglês de geomagnetically induced current) são produzidas quando choques resultantes das súbitas e severas tempestades magnéticas sujeitam partes da superfície da Terra a flutuações no normalmente estável campo magnético da Terra. Estas variações de campo magnético induzem campos eléctricos na Terra que, por sua vez, criam diferenças de potencial entre os vários pontos de aterramento que levam a que as GICs fluam através de transformadores, linhas de transmissão e outros pontos de aterramento. Note-se que poucos “amperes” são necessários para perturbar a operação de um transformador (p.e.), e que, em muitas áreas afectadas por tempestades magnéticas chegam a verificar-se correntes de mais de 100 A.

 

As GICs podem levar os transformadores àquilo a que se chama de saturação em meio-ciclo - uma situação na qual a corrente nos enrolamentos pode exceder a carga nominal dos transformadores causando igualmente que o fluxo magnético, usualmente circunscrito ao núcleo do transformador, origine fugas para as estruturas adjacentes provocando aquecimentos excessivos e consequentes danos. Existem evidências de que a vida útil dos transformadores nas zonas susceptíveis a GICs é mais reduzida que o normal.

 

Para além de problemas no próprio transformador, a saturação em meio-ciclo leva o transformador a requerer uma grande corrente de excitação que, à frequencia fundamental, apresenta uma componente inesperadamente indutiva. A enorme corrente de excitação está igualmente repleta de harmónicas cuja presença pode causar o extemporâneo disparo dos bancos de condensadores, o que agrava as condições de regulação de tensão da rede.

 

publicado em xitizap # 6

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