os Guarda-Fios

 

No meu tempo, os guarda-fios eram a linha da frente da prevenção e combate às queimadas sob linhas eléctricas.

 

Bem implantados nas comunidade locais, os guarda-fios eram contratados como olheiros do património das empresas eléctricas (postes, condutores, isoladores, perímetro das subestações) e, para além de inspecções de rotina, cuidavam das picadas de acesso e faixas de serviço das linhas, organizando capinagens sazonalmente negociadas com as comunidades.

 

Normalmente, eram os guarda-fios de zona quem dava o primeiro alarme sobre queimadas e/ou destruição de materiais aos operadores das redes e, consoante a sua dedicação e empenho, eles frequentemente evoluíam, tornando-se excelentes montadores/reparadores de linhas de distribuição rural. Creio que, hoje em dia, e apesar de cada vez haver mais queimadas descontroladas, esta nobre profissão foi por cá abolida sem que se tivessem implementado alternativas mais fiáveis.

 

Continuo por isso a ter saudades dos guarda-fios.

Não só porque sinto que, frequentemente, são enormes os distanciamentos entre as comunidades e os fios que, sem as servir, por cima delas passam (e daí talvez muitos dos roubos), mas sobretudo porque, afinal, a qualidade de serviço das redes pouco ou nada melhorou - em boa parte porque os fogos e queimadas continuam sendo dos principais causadores de disfunções nas linhas aéreas de transmissão/distribuição (diminuição de resistência dieléctrica, destruição de postes, sujidade em isoladores, etc).

 

Todavia, e embora eu acredite que a função guarda-fios (no seu mais profundo sentido literal) deve ser urgentemente reposta em tudo o que é Área de Distribuição EDM, sobretudo agora que se torna mais extensa a cobertura eléctrica rural, eu considero que, no que diz respeito ao aviso e gestão do impacto das queimadas, talvez se deva recorrer a sistemas mais modernos que, via online e em tempo real, permitam aos operadores estruturar respostas mais eficazes.

 

Na África do Sul, por exemplo, em 2004 a Eskom e CSIR desenvolveram um simples mas avançado sistema de informação  que lhes permite melhor combater as avarias nas linhas causadas por queimadas descontroladas – o  AFIS (acrónimo de Advanced Fire Information System) é baseado em sensores instalados em satélites que, ao detectarem fogos activos, imediatamente canalizam mensagens de alerta (via SMS p.e.) para as relevantes unidades da Eskom.

 

Este tipo de sistema AFIS tem um conjunto de simples tarefas: alerta os utilizadores interessados quanto à existência de fogos nas proximidades das infra-estruturas; arquiva os acontecimentos; e permite criar, online e em tempo quasi-real, um mapeador de fogos/queimadas consultável pelos operadores das redes eléctricas.

 

No caso do sistema AFIS, ele é alimentado pelo MODIS (Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer, um instrumento instalado nos satélites Aqua e Terra que providencia a detecção de “pontos quentes”/hotspots à escala de um hectare em intervalos de aproximadamente seis horas) em combinação com o sensor SEVIRI (Spinning Enhanced Visible and Infrared Imager) que a bordo do satélite Meteosat-8 disponibiliza uma alta resolução temporal (15 minutos) numa resolução espacial atingindo 5 hectares. Os algoritmos específicos do MODIS e SEVIRI são quasi-instantaneamente sobrepostos e integrados e, através de estações terrenas, encarregam-se de distribuir mensagens de alerta (tipo SMS) a todos os interessados – incluindo putativos guarda-fios apetrechados dos telefones celulares que cada vez mais por aqui se espalham graças à elevada densidade de cobertura das redes telemóveis.

 

Curiosamente, todos estes sistemas, quer de satélites, quer de processamento de informação e de comunicações móveis, estão hoje disponíveis através de programas e standards de fonte-aberta, pelo que, muito retoricamente me pergunto: porque não se faz uso deles?

 

josé lopes

 

março 2010

xitizap # 53

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o Guarda-Fios

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The Southern African Advanced Fire Information

System

 

por Graeme McFerren

Meraka Institute