xitizap # 52

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Eskom e Mphanda Nkuwa

 

Sabendo da minha paixão por sistemas hidroeléctricos, há quem ache estranha a irritação que Mphanda Nkuwa me causa.

 

Provavelmente, ter-me-ei explicado mal.

 

O ponto é que, não estando em causa o potencial hidroeléctrico da barragem, e o valor futuro que terá quando efectivamente dela viermos a necessitar, sempre me incomodou, não só a ligeireza técnica com que há mais de 10 anos o assunto tem sido tratado (1), mas, também, a estratégia de mercado a que insistem em atrelá-la: miragens de exportações massivas para a África do Sul.

 

Dirão alguns que a actual crise eléctrica sul-africana vindica esta tese exportadora.

Não creio! Eu acredito, isso sim, que, o deficit dos vizinhos resulta, pura e simplesmente, de uma séria crise de gestão da Eskom e do monopólio em que ela se encapsula.

 

Mas, para que melhor se entendam as razões porque sempre considerei como extemporâneo o frenético (mas sempre mal sucedido) marketing Mphanda Nkuwa, acho conveniente revisitar um IRP (Integrated Resource Plan 2009-2028) recentemente elaborado pela Eskom (Setembro 2009), e, em particular, o modo como a estatal sul-africana trata o assunto Mphanda Nkuwa.

 

Por exemplo: nesse plano a 20 anos, para além da “baixa confiança quanto a custos e tempos de construção” que a putativa barragem lhe oferece, a Eskom liminarmente exclui Mphanda Nkuwa de todos os seus cenários-base invocando também razões de “impactos na segurança de fornecimento, em especial se não houver suficiente diversificação entre países fornecedores”.

 

En passant, aqui importa também notar que as sistemáticas correcções técnicas na infra-estrutura de transmissão do projecto e consequentes alterações dos respectivos investimentos de capital - que já ultrapassam os 2.5 biliões USD -, não foram sequer modeladas pela Eskom.

 

Curiosamente, não sei se por frete, ou se por mero academismo ambientalista, neste IRP (2009-2028) a hipótese Mphanda Nkuwa surge apenas como uma referência para “testes de impacto” no final da próxima década (2018), e em caso de cenários politico-ambientais extremos tais como a exclusão do carvão como opção Eskom – uns cenários tão improváveis que a Eskom não se deu sequer ao trabalho de para eles conceber planos de expansão optimizada.

 

E são estas as principais razões pelas quais continuo sem perceber onde é que cabem os PPAs (2) que os promotores Mphanda Nkuwa passam a vida a anunciar – na verdade, o que vejo é só exportação de miragens.

 

Por outro lado, e embora já se saiba que o planeamento Eskom virá a ser revisto à luz de novos critérios e metodologias, já é possível prever que a filosofia importadora da Eskom não será profundamente alterada.

 

O que é previsível, isso sim, é que, para além de carvão mais limpo e mais eficiente, se assista ao reforço da frota nuclear da Eskom (via PWRs de terceira geração, agora que o PBMR eléctrico foi definitivamente à vida), aliado a mais co-geração e gestão da eficiência eléctrica, a maiores apostas em energias renováveis (vento e Sol-CSP) e à crescente participação de produtores independentes locais num quadro de progressiva privatização do sector eléctrico.

 

Entrementes, e nunca esquecendo que, à excepção do Malawi e Tanzânia, de uma forma ou outra a energia primária continua abundante nos países SADC, eu preferiria que, ao invés de se foguetearem miragens exportadoras, por aqui se alavancasse o mercado interno e a promoção da utilização interna dos nossos folgadíssimos sistemas eléctricos.

 

 

josé lopes

 

fev 2010

 

(1) sobre a fragilidade cognitiva que permeia Mphanda Nkuwa leia xitizap # 49

 

(2) PPA – Power Purchase Agreement = Acordo de Compra de Electricidade.