Biliões em Copenhaga

 

Cem biliões de dólares US por ano deverá ser o valor que os governos africanos exigirão em Copenhaga tendo em vista a mitigação das suas emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE) e o reforço da capacidade de adaptação do continente às mudanças climáticas.

 

O valor não foi confirmado pelo PM da Etiópia (coordenador da equipa africana de negociação em Copenhaga) aquando da recente reunião do CAHOSCC (Committee of African Heads of State and Government on Climate Change, de que Moçambique faz parte), mas, Meles Zenawi referiu que, apesar de disponíveis para uma certa flexibilidade, os governos de África estabeleceram de facto um plafond mínimo não-negociável.

 

O líder etíope disse ainda que “a mitigação é a prioridade-chave para África já que, sem mitigação, não há possibilidades de adaptação”. Ainda segundo ele, “o segundo ponto-chave é a adaptação, o que implica a compensação pelos danos causados pelos países desenvolvidos às perspectivas de crescimento em África e outros países pobres.”

 

De facto, e a fazer fé nas conclusões do mais recente relatório IPCC, apesar de a contribuição de África em termos de emissões GEE ter um significado global diminuto, esta será a região que mais sofrerá com as actuais e futuras mudanças climáticas.

 

Segundo o IPCC, por aqui, o panorama não é animador:

 

. por volta de 2020, estima-se que entre 75 e 250 milhões de africanos estejam expostos a extremas dificuldades no acesso à agua.

 

. no mesmo período (2010/20), prevê-se que, em alguns países africanos, os rendimentos da agricultura familiar baseada em chuvas possam ser reduzidos em 50%, o que agravará substancialmente a malnutrição e a insegurança alimentar do continente.

 

. na maior parte dos cenários projectados pelo IPCC, estima-se ainda que o crescimento das zonas áridas e semi-áridas cresça cerca de 5 a 8% antes mesmo de 2080.

 

. ainda durante este século XXI, prevê-se também que, em África, as zonas costeiras mais baixas e com grandes populações serão adversamente afectadas pela subida dos níveis dos oceanos, o que implicará custos de adaptação mínimos na ordem dos 5 a 10% do PIB destes países.

 

É pois neste dramático emaranhado de questões que, em Copenhaga, os conceitos de Mitigação e Adaptação dominarão a cimeira climática, embora talvez fosse preferível que o mesmo ou maior relevo fosse dado a uma outra incontornável condição IPCC: a necessidade de, a nível de cada país, se integrar a política climática no quadro mais geral do desenvolvimento.

 

Uma condição que é particularmente relevante sobretudo em países que, como Moçambique, só recentemente puderam começar a delinear e assentar as suas próprias políticas de desenvolvimento.

 

Daí que, a par do muito taco que de Copenhaga aqui poderá chegar, me excite também esta possibilidade ímpar de se integrar políticas climáticas, usualmente tratadas em separado e a nível micro, no âmbito de políticas gerais muito concretas a nível macroeconómico, agrícola, de micro-financiamento, de segurança energética e conservação florestal, entre outras – o que permitiria, não só mitigar emissões GEE, mas também desenvolver vitais capacidades de adaptação.

 

De momento, não faço a mínima ideia quanto ao pacote que de Copenhaga aqui chegará. Sei apenas que, embora as tabelas 4.1 (adaptação) e 4.2 (mitigação) do relatório IPCC cubram exaustivamente muitas das opções políticas disponíveis, talvez valha a pena não esquecer que, num país que ainda se está a fazer infra-estruturalmente, mitigar e/ou adaptar pode significar uma única e mesma coisa: crescer sustentadamente.

O que, entre muitas outras oportunidades, implica investir este tipo de fundos em algumas áreas tão vitais como a conservação de recursos hídricos e florestais, a adaptação e defesa das comunidades em margens e costas baixas, e a adopção de políticas energéticas que, a par de segurança de fornecimento e paz social, ataquem eficazmente um dos calcanhares de Aquiles da nossa frágil balança de pagamentos - ou seja, a frota automóvel e ferroviária baseada em combustíveis (diesel/gasolina) que, não só não temos, mas que, também, tendem a esgotar-se globalmente num futuro muito próximo.

 

Segundo presumo, é para isso mesmo que servem o gás natural e a electricidade que em abundância dispomos, e, ironicamente, também o carvão.

 

josé lopes

 

dezembro 2009

 

 

A União Europeia (EU) estima que serão necessários 100 biliões de Euros por ano (148 biliões USD) para que seja tangível o envolvimento de África na batalha climática - com este propósito, a comissão executiva europeia propõe que, no período 2013 a 2020, os 27 países EU compensem África via 15 biliões EUR por ano.

 

Glossário IPCC

 

Adaptação

Iniciativas e medidas que reduzem a vulnerabilidade dos sistemas humanos e naturas contra os efeitos actuais e futuros das mudanças climáticas. Existem vários tipos de adaptação, como por exemplo do tipo antecipatório e reactivo, privado e público, e autónomo e planeado. Exemplos de adaptação são a elevação de diques nos rios ou costas, a substituição de plantas sensíveis por outras mais resistentes aos choques térmicos, etc.

 

Mitigação

Mudanças e substituições tecnológicas que reduzem o consumo de recursos e de missões por unidade de produção. Embora diversas políticas sociais, económicas e tecnológicas possam produzir uma redução de emissões, em termos de Mudanças Climáticas, mitigação significa implementar políticas que reduzam emissões de Gases de Estufa e melhorem os processos, actividades ou mecanismos que removem da atmosfera um gás de estufa, um aerosol ou um qualquer dos seus precursores (sink).

 

2007

Quem é quem no efeito de estufa?

 

emissões CO2 (milhões toneladas)

 

in Visão (nov 2009)

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Mphanda Nkuwa unplugged

 

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