a úlcera do Homo petroliensis

 

Embora tranquilo quanto à leveza carbónica com que chegarei a Copenhaga – recorde-se que Moçambique chega à Cimeira Climática com uma das mais baixas emissões de gases de efeito de estufa, quer em termos globais, quer sobretudo em termos per capita -, inquieta-me o facto de, neste COP15, pouca ou nenhuma relevância estar a ser dada a uma outra crise que conflui muito com Clima: a do petróleo.

 

E isto é estranho porque, sendo cada vez mais explícitos os sinais indiciando que, a nível global, as reservas recuperáveis de petróleo podem ser muito menores do que há tempos a IEA e o mundo anunciavam, a única coisa que se vê é depleção dos campos petrolíferos correntes, em complacente coexistência com o declínio de descobertas viáveis, insuficiência de novos projectos e demandas que crescem massivamente - razões acho que bastantes para que cada um construa a segurança energética que merece.

 

Balanceada a importância que o petróleo continuará a ter na economia global, não é difícil admitir que, a curto-médio prazo, as consequências geopolíticas da eminente incapacidade tecnológica em responder à demanda terráquea não auguram nada de bom.

 

E como já tantas vezes se constatou por ocasião dos vários golpes nos preços petrolíferos, ignorar a iminência e escala dos próximos choques, e não lançar mão a medidas que mitiguem este tipo de riscos, equivale a negligenciar-se a adaptação dos mais vulneráveis – a esmagadora maioria humana, afinal -, face aos abismos económicos e sociais, à insegurança alimentar e energética, para não falar nas consequências em termos de paz e estabilidade internacional.

 

Como seria de esperar, muitas das soluções para os problemas que se prevêem ao nível do fornecimento energético confluem com soluções propostas para algumas das questões climáticas – a eficiência energética, o remix da demanda, e por arrastamento o do fornecimento, o foco nos recursos renováveis e na segurança energética, por exemplo, tudo isto traz, quanto mais não seja por mera indução tecnológica, uma substancial redução na contribuição antropogénica para o efeito de estufa – e também para os mais tangíveis efeitos que, todos os dias, eles já causam à malta cá em baixo – fumaradas, estranhos lixos, poluições outras que todos os quotidianos conhecem.

 

Entretanto, vale notar que questões como “Já entrámos ou não no Pico do Petróleo? O plateau Shell 2050 é ou não plausível?”, são tecnicidades que só mesmo por diletância me interessam – ao contrário de uns poucos, eu estou perfeitamente consciente de que, um dia destes, esteja eu onde estiver, os preços de petróleo dificilmente estarão ao meu alcance.

 

Mas, e já agora aproveitando o drive diletante, confesso que me farto de rir (e chorar) quando observo uma curiosa coincidência – segundo contam, nos últimos tempos, as ciências, seja a do Clima do ar do mar ou do Sol, seja a do Petróleo e suas reservas recuperáveis, não têm respirado o rigor que só a transparência potencia, e, como diz o outro, nisto de ciências, os factos tendem sempre a andar mais rápido do que a realidade burocrática.

 

Por falar nisso, e só como nota final de humor climático, não deixa de ser engraçado reparar que, se por mera hipótese o petróleo vier a esgotar-se tão rápido como muitos dizem, então os cenários IPCC para as altas emissões de CO2 podem estar longe do fisicamente atingível.

 

E por uma simples razão - é que, se de facto as reservas de petróleo recuperáveis forem mais baixas do que convencionalmente se supunha, a combustão de que tudo o que nos resta de petróleo, carvão e gás produzirá uma concentração atmosférica de CO2 em 2100 de apenas 470 ppmv: o que limita o terror climático a níveis próximos da meta de estabilização defendida por muitos climatologistas como o limiar do pior caso de impacto climático.

 

josé lopes

 

dezembro 4, 2009

 

 

xitizap # 50

 

 

dezembro 2009

 

Se a demanda aumentar e o fornecimento cair

então há um deficit que cresce (marquês de La Palisse)

 

ou, 10 coisas a lembrar sobre Petróleo

 

1.  1965 foi o ano em que mais volume de petróleo foi descoberto. Desde então, o número e dimensão de novas descobertas entraram em declínio.

2.  Em 1984 a produção convencional de petróleo excedeu os novos volumes descobertos, e essa lacuna tem aumentado desde então.

3. Em 2007, um pouco mais de metade da produção mundial de petróleo foi obtida em 110 campos de petróleo, e aproximadamente ¼ em 13 desses campos. Existem mais de 70,000 campos mais pequenos que fornecem menos de metade da produção mundial.

4. Em 2007, 17 dos 20 maiores campos de petróleo em operação tinham mais de 40 anos. O volume de produção de 16 desses 20 maiores campos estava abaixo dos seus máximos históricos.

5. A taxa de declínio dos campos de petróleo pode ser rápida. Em 2007 a taxa média de declínio pós-pico era de 6.7% ao ano.

6. Entre 2005 e 2008 a produção convencional de petróleo deixou de crescer apesar de massivos investimentos e do aumento dos preços e demanda. Esta incapacidade em se aumentar a produção convencional de petróleo apesar da presença de todos os “incentivos certos” não tem precedentes na história do petróleo.

7. Para 2015, a IEA (International Energy Agency) projecta um potencial desequilíbrio de 7 milhões de barris por dia (m bpd) entre fornecimento e demanda. Uma lacuna desta grandeza representa 7.7% da demanda mundial projectada de 91m bpd para 2015. Tal lacuna equivale a mais de 60% da demanda da China projectada para 2015, e 39% da dos USA.

8. Entre 2008 e 2020, a IEA prevê que a produção convencional de petróleo a partir dos campos existentes caia cerca de 50%.

9. Segundo a IEA, responder à demanda de petróleo projectada para 2030 implica lançar em operação cerca de 64m bpd de novas capacidades brutas de produção entre 2007 e 2030, ou seja, o equivalente a 6 vezes a que actualmente a Arábia Saudita dispõe.

A nível global, cerca de 95% dos meios de transporte depende do petróleo, e 99% da produção alimentar utiliza petróleo e gás em alguma das fases da sua produção

 

in Heads in the Sand (Global Witness, October 2009)

Text Box: “Eu penso que o petróleo e o gás fácil – ou seja, combustíveis que são relativamente baratos em termos de produção e muito fáceis de colocar no mercado – entrarão em fase de pico dentro de 10 anos”

Jeroen van der Veer, CEO da Royal Dutch Shell plc (2007)

Produção cumulativa de petróleo entre 2008 e 2100 segundo os cenários de emissões IPCC, em unidades ZJ (Zettajoule ou Zeptojoule). A linha a tracejadoé a estimativa de Hubbert para a produção de petróleo. Os valores IPCC foram obtidos a partir da Fig. 4-8 da ref. 11, e ajustados por subtracção de 2.8 ZJ dos cenários para consideração da produção entre 1990 e 2008.

xitizap # 50

Biliões em Copenhaga

Uraniborg

Pico do Petróleo

corredor municipal

pegadas Microsoft

soltas