xitizap # 42

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É oficial: a minha central a gás natural foi adiada sine die.

 

A decisão foi tomada há dias pelo consórcio Gás Xiti-Virtual (GXV) e, no essencial, ela resultou do esmagador sucesso de um concorrente: um potentado IH/EDM/SASOL que negociou com a Eskom um pré-PPA ancorando uma central a gás na Moamba (680MW).

 

Segundo secamente me comunicou a directoria GXV, o novo factor SASOL empurrava o consórcio para riscos comercialmente perigosos para os seus investidores virtuais, pelo que, eu que passasse bem, muito obrigado, que eles passavam a estar noutra - até que se diluísse a opacidade que por aqui navega o valor e uso do gás natural.

 

Ainda segundo o GXV, mas agora sob reserva de a participação da SASOL como investidor estratégico nunca ter sido confirmada pelo gigante petroquímico – o que não deixa de ser estranho tanto tempo depois do anúncio EDM/Eskom de Maputo , um cenário envolvendo a SASOL como investidor eléctrico dominante é um pau de dois bicos.

 

Por um lado, a SASOL pode vir a funcionar como um samaritano impulsionador de outras gerações geo-distribuídas (o que talvez fosse óptimo para todos); contudo, e aqui é quando o macaco mais coça os calos do cú, um mercado tão dominantemente controlado pela SASOL (um seller-market quasi-perfeito) poderá potenciar graves distorções nas condições de acesso concorrencial ao gasoduto e gás de Pande/Temane - em termos de neutralidade de redes e tarifas (quer de gás, quer de electricidade) p.e.

E este é um risco que, a médio-longo prazo, o GXV não se dispõe a correr na nova economia do gás natural.

 

O board GXV chamou-me ainda a atenção para uma outra aberração que parece enevoar a paisagem industrial.

 

Com base numa multitude de referências, o GXV concluiu que alguma coisa parece não bater certo nos números sugeridos pelo consórcio IH/EDM/SASOL para a central da Moamba (USD 1.3 bilião, 680 MW). Com efeito, e após dedução dos relativamente pequenos custos de transmissão (gás e electricidade), os números preliminarmente avançados pelo consórcio da SASOL são o dobro do que seria de esperar.

 

Este extraordinário empolamento de custos, que na óptica do GXV inviabiliza qualquer hipótese de investimento (mesmo com o gás ao irrisório $1 USD/GJ), prenuncia uma matriz de opacos custos indirectos que, para além de desvirtuar a higiene do mercado, certamente exigirá uma criatividade de gestão que largamente transcende as capacidades GXV.

 

Todavia, importa realçar que este meu ex-consórcio admite a hipótese de estar errado quanto aos custos de investimento e, em nome da sanidade concorrencial, ordenou-me a imediata submissão das referências GXV a escrutínio público.

 

Finalmente, noblesse oblige, vale dizer que, mau grado estes potenciais desequilíbrios concorrenciais (quiçá virtuais), e apesar de a Moamba não preencher os requisitos ambientais e de geo-segurança que o meu consórcio visava (dotar o Sul de Moçambique de 360 MW a gás natural, tão litorais quanto económico), o GXV não pode deixar de reconhecer que esta opção Moamba é, por assim dizer, a solução mais esperta e barata em termos de exportação para a Eskom (minimização de pipelines e linhas eléctricas) - malgré o incontornável dry-cooling.

 

Mas o GXV diz mais: diz que, a fazer-se, seja na Moamba seja noutro sítio, a custos certos este natalício negócio de Peta Joules um dia trará um belo cabaz de proveitos para o Estado, e um perú de carga-base para a SASOL :)

 

josé lopes

 

dezembro 2008

 

ps A – no entretanto, favor não virem com miragens de gás e futebóis 2010.

 

ps B – quanto à revisitação da Eskom ao gás de Kudu, duas semanas após a visita a Maputo, check os custos de 800 MW na Namíbia.

 

 

(1) - Em termos de centrais a gás natural, a única coisa pública que sei da Sasol é de uns 285 MW em Secunda (RSA).

 

(2) - Lembrar que a SASOL controla 70% dos poços moz-gás, 100% do único Centro de Processamento e bem mais de 50% do gasoduto Temane-Secunda.

 

Quantas toneladas de água por hora serão necessárias na central Moamba?

 

Com os rios no estado em que estão, é praticamente impossível evitar o dispendioso Dry-cooling.

 

Repare-se nas áreas populacionais e agrícolas a jusante das poucas hipóteses de tomada de água.

 

xitizap # 42

 

dez 2008