Meu Caro Zeca Bamboo,

 

tomei boa nota da provocação que há um mês me lançaste a propósito do takeover hostil da BHP Billiton sobre a Rio Tinto – lembro-te mesmo que, na altura, ousaste insinuar que o xitizap # 41 mais parecia uma edição do Diário do Povo chinês… tipo panfleto Viva o Capitalismo de Estado.

 

Claro que achei piada ao papo e, deixa-me confessar-te, estranhei até que não tivesses espalhado mais algum do teu imenso veneno – mais não seja porque, de todo, talvez não fosse descabido insinuares também que, por omissão pelo menos, o xitizap # 41 parecia apostado em sanitizar outras conhecidas manigâncias: dos poços de petróleo de Darfur às florestas moçambicanas, passando pelos atropelos humanos na China por exemplo.

 

Entretanto, muito contra o que é meu costume, preferi deixar correr algum marfim antes de responder à tua provocação - em pleno turbilhão financeiro global, confesso que precisava de mais uns pastéis factuais para te atirar ao focinho.

 

Felizmente, não foi preciso esperar muito, uma vez que, mais cedo do que se esperava, a BHP Billiton acabou por lançar ao chão a toalha com que pretendia embrulhar o seu novíssimo monopólio.

 

Assim, e agora que esta divertida batalha está tacticamente ganha, e isso é que me interessa, talvez seja altura de regressar à tua provocação sem que percas de vista o seguinte: deliberadamente, o objectivo central do xitizap #41 era ampliar e qualificar a frente de luta contra a formação de um monopólio metal-mineiro cujas botas já várias vezes cheirei.

 

Começo por te lembrar - oh empedernido stalinista! -, que foi por teu intermédio que estabeleci contacto com alguns dos mais aborríveis (mas quand même profícuos) conceitos de amplas alianças frentistas. Lembra-te ainda que, segundo estridentemente berravas na altura, sempre que parecessem justas as causas ditas democráticas e nacionais (e mesmo as pessoais, como frequentemente me lembravas em surdina) tudo, mas absolutamente tudo, se podia e devia misturar: proletários, burgueses, aristocratas, camponeses, intelectuais, analfabetos, mukeristas, desempregados, stockbrokers e o lumpen, incluindo diletantes.

Aliás, bem vistas as coisas, mais não fiz do que seguir a fábula deng-xiaopinguiana do gato e do rato – uma alegoria que sempre te encheu a boca.

 

Não percebo portanto o teu pudor quando criticas o meu entrismo nesta ampla aliança frentista na qual, por diferentíssimas razões, coabitam capitalistas de Estado e Corporações, lobbistas do aço do red tape e do investment banking, regulocratas de matizes várias, e geo-diletantes que, como eu, se mostram inquietos com a progressiva desatenção afro-índica da BHP Billiton sob a batuta afrikanner do seu novíssimo CEO.

 

Permite-me ainda que acrescente um bocadito mais de mayonnaise à empada que vais ter que lamber. É que, se reparares bem, além de se ter travado um polvo monopolista, no processo recolheram-se outros bónus:

 

#1 – uma vez mais se provou que, mais frequentemente do que o desejável, a governação dos poderosos titãs metal-mineiros tende a interpretar mal vários riscos antropogénicos (escorando-se ainda pior contra eles) - em particular sempre que as suas lideranças são afectadas, ou por miopia (como agora no caso dos erros de leitura que a BHP Billiton fez quanto às regulações EU, China e mesmo Japão, por exemplo), ou por alucinações de wishful thinking quando se decidem a manipular mercados estratégicos; uma fase em que, tipicamente, eles passam a confundir desenvolvimento global com a sinergia dos seus dividendos. Aliás, sobre este assunto, basta lembrar o paraíso das previsões que ainda ontem eles vendiam ao Mercado, e a ressaca que hoje os atravessa. Lembra-te ainda que tudo isto são gajos que passam a vida a dar-nos lições de excelência e eficácia corporativa, incluindo na gestão de riscos.

 

#2 – por outro lado, e quando em menos de 3 meses um negócio que eles diziam valer USD 350 biliões passou a valer 66, há uma conclusão que, até tu, és obrigado a tirar: os gajos têm nos bolsos corporativos muito excedente monetário socialmente-mal-dividido. O que, entre outras coisas, tende a embebedá-los com tentações que nos custam milhões (lembra-te que, além de uma equipa de 43 executivos internos, só em fees a BHP B desperdiçou externamente mais de USD 350 milhões). Repara também que, mesmo apesar do actual mega-estoiro de tantos valores virtuais, só a BHP Billiton e a Rio Tinto terão, em 2008, lucros várias vezes múltiplos do nosso PIB p.e. - tudo somado, qualquer coisa como USD 20 biliões. O que não é nada mau se tiveres em conta que, mesmo neste cenário de preços, nenhuma destas mega-corporações está hoje a comerciar produtos abaixo dos seus custos marginais de produção.

 

E se a isto tudo somares o facto de eu precisar de refrescar o baralho de cartas do Titanopólio, não me parece destoado despedir-me citando o serendipitoso Albanese (curiosamente também ele um recente CEO Rio Tinto) que, após ter perdido mais de metade do valor Rio Tinto, com o ar mais natural do globo caracteriza a actual fase como uma “Pausa para (ele e nós) Respirarmos” – e muito fundo sugiro eu… em particular no que no diz respeito ao DNA da especulação bolsista e ao opaco preçário das commodities.

 

inté

 

josé lopes

 

Dezembro 5, 2008

 

ps 1 – quanto à Chinalco ficamos assim: não só eles, como braço estatal da China, perderam mais de 8 biliões USD desde que em Fevereiro 2008 compraram 12% das acções Rio Tinto em Londres, como também apanharam um grande susto quando iam ficando sem elas.

 

ps 2 – entretanto, acho que deves ir preparando alguns trocos porque, aí por Janeiro 2009, talvez seja altura de comprares umas acçõezitas na BHP Billiton.

 

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