Where in the world is João de Azevedo ?

 

 

Dili, 13 Mar. 06

 

1. Estas pinturas são feitas com tintas acrílicas (polímeros) sobre papel Fabriano de algodão 600- 850 gr. Destes ficheiros uns têm medidas aprox. 59 X 76 cm; os outros, metade.

 

 

 

2. Este é o meu cartão de visita mais antigo, de 1975.

Nasci em 1950, e tinha então 25 anos quando deixei de pintar. Deixei de o fazer quando fui de Itália para Portugal, onde passei a fazer outras coisas. Isso passava-se numa altura em que era fácil acreditar na revolução; esta capa de disco é a prova disso, feita a convite do Zeca.

3. Em Itália fui pintor activo, entre 72 e 75; fiz duas expôs individuais e participei em várias colectivas (em Itália e fora dela). Parei de pintar porque me parecia desajustado, pessoalmente, fazer coisas para as pessoas com dinheiro comprarem. Tive uma espécie de vergonha, hesitação maior, pouca autoconfiança. Queria mudar de vida, mas não sabia bem para qual vida mudar. Ia com as coisas, mas sempre acompanhado pelos pincéis, que ficavam numa caixa fechada.

4. Desde então, tenho andado a fazer outras coisas; principalmente tenho andado a participar em actividades do (mau) desenvolvimento. Entre elas: 9 anos nas nações unidas, agora consultor independente, desde 2001.

 

5. Com o mais recente regresso às pinturas, trata-se de fazer trabalho manual, em primeiro lugar. E fazer trabalhar as duas partes do cérebro, como alguns dizem. Passar por cima do determinismo que nos empurra para manifestarmos apenas uma pequena parte dos nossos talentos, usar apenas uma parte do nosso corpo, a escolher ou a cabeça ou as mãos, ou outra parte qualquer. Afinal já (re)penso que pintar dá muito gozo; que o trabalho manual já (re)vale outra vez -  e que é mesmo necessário. Penso que para o futuro é preciso fazer um trabalho mais integrado, mais holístico. O pouco que sabemos sobre nós próprios aponta para essa necessidade: reintegrar as nossas forças, os nossos lados emocionais, os nossos lados espirituais, o nosso interesse pelo ambiente. É hoje difícil para mim imaginar que alguém se possa desenvolver sem nada acrescentar à qualidade da vida dos outros. Este é o tipo de coisa para a qual é difícil imaginar como falar delas (cito, indirectamente, Boyatzis).

 

Timor e as minhas citações dos crocodilos.

 

6. Mais ainda, cito, e paro aqui de citar, mas indirectamente, José Gil, citando Levy Strauss, porque de facto as sociedades primitivas não tinham os homens no centro do universo. A natureza e os outros seres vivos foram desvalorizados, “arrancando-lhes o homem para o colocar num lugar de eleição”. Esse desprezo do ambiente virá daí. Visto de Timor, e desta parte do mundo, isto ganhou-me para o lado dos crocodilos. Estes animais são aqui da máxima ambiguidade significante e de alta densidade histórica. As narrativas (lendas, isto é, a história como é dita e acreditada pelas pessoas normais) são povoadas pelos crocodilos. Apesar de tentativas de normalização, eles continuam presentes no imaginário como parceiros dos sonhos e da vida real. Tomam várias cores, nessas narrativas, segundo as zonas, as ocasiões, as intenções, as testemunhas. As mulheres de certos povos não são mulheres senão à vista, porque mal voltas as costas, são crocodilos. Um rei de um outro povo deu a filha mais velha ao crocodilo, para ganhar a guerra. Outro rei, de outro povo ainda, fez um acordo com os crocodilos para deixar passar os seus soldados, afim de surpreender o inimigo invasor pela retaguarda. Os crocodilos não te atacam se estás tranquilo, se tens a “consciência em paz”. Antes de os indonésios desembarcarem, em 1975, tal coisa foi largamente anunciada por muitos crocodilos que apareceram na baía de Dili. Uma conhecida lenda conta que a ilha de Timor tem a forma de um crocodilo, depois de velho e morto e de ter sido companheiro de um rapaz, que lhe foi muito amigo (citação da pintura nº17). Há sempre uma narrativa segunda a qual “na semana passada” os crocodilos vieram e levaram 4, 5 ou 6 pessoas. Esses animais são a parte escondida e mágica do espírito. Têm do bom e têm do mau. Eu cito essas histórias, não para as ilustrar, mas porque procuro esse feeling, essa humanidade nesses animais.

7. Esses animais existem e comem, de facto, pessoas, quando podem. Toda a região está infestada. Na costa norte da Austrália, por exemplo, é absolutamente proibido tomar banho nas praias, de Novembro a Abril. Eles pululam na baía de Darwin, por exemplo. São os saltwater crocodiles (Crocodylus porosus), que atingem facilmente 4 metros (às vezes mais) de comprimento, são ultrarápidos no ataque e vivem entre a água doce e a salgada. Existem desde há talvez 200 milhões de anos, são dos mais velhos sobreviventes, são hoje espécies protegidas.

8. No meu caso e com eles, voltando aos pincéis depois de tantos anos, jogo com as cores, para espantar e seduzir os parceiros. Crocodilos homens e mulheres, e vice-versa, homens e mulheres crocodilos. Acasalamentos, pesadelos, combates; não ilustro nada, são citações de ocasiões que poderiam ter acontecido. Vou tendo algum feed back. Assim, uns velhos exclamam: “Até parece que o senhor joão estava lá!”

 

joão.de.azevedo@mail.telepac.pt

xitizap # 24

réplicas de sismos

riscos hidrodinâmicos

Eu e o Google

intranquilidade nuclear

tormentas em Koeberg

crocs de Timor

rapidinhas

 

todas estas artes são apenas scans …

 

os originais podem ser vistos em

 

 Dili -  Timor

 

chez

 

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