xitizap # 24

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Central Nuclear de Koeberg

 

 

sabotagem ou …

 

 

“Os estragos na Central Nuclear de Koeberg foram feitos deliberadamente, e não foram um acidente … Uma investigação está em curso e em breve serão deduzidas acusações criminais

 

referiu Alec Erwin, Ministro das Empresas Públicas da África do Sul, em conferência de imprensa a 28 de Fevereiro 2006.

 

Logo após esta conferência de imprensa convocada a propósito dos inúmeros blackouts que afectam Cape Town e toda a região do Cabo Ocidental, a Ministra tutelando a pasta dos Mineriais e Energia, Lindiwe Hendricks, referiu à Reuters que

 

Os relatórios iniciais indicam que poderá ter havido sabotagem.”

 

Estas declarações por parte de dois eminentes políticos foram produzidas na véspera das eleições municipais na África do Sul e, como é natural, abriram a porta a um vendaval de especulações quanto à segurança da central nuclear de Koeberg e, por extensão, quanto aos ambiciosos programas nucleares da Eskom que, para além de uma hipotética segunda central nuclear PWR (Pressurized Water Reactor) a entrar em serviço em 2015, incluem a extensa disseminação dos famosos pacotes nucleares PBMR (Pebble Bed Modular Reactor).

 

Embora a Eskom, proprietária e operadora da Central de Koeberg, imediatamente se tenha distanciado das declarações dos ministros que a tutelam, isso não evitou que se adensasse o já espesso caudal de dúvidas quanto à (in)segurança nuclear, agravando-se assim a negativa percepção pública quanto a tais riscos.

 

Diversos tem sido os argumentos esgrimidos sobre as piruetas do parafuso perdido e outros recentes factos em Koeberg: sabotagem? desleixo? operadores tecnicamente mal preparados? inadequados programas de manutenção? laxidão de segurança?

 

Mas, nesta altura, e dada a sua sensível natureza, o que parece lógico e prudente é aguardar pelos resultados das investigações actualmente desenvolvidas pelas autoridades policiais e NIA (National Intelligence Agency) – e exigir que a Eskom imediatamente reforce a segurança das instalações e operações em Koeberg.

 

Entretanto, e a propósito das normas técnicas de operação de Koeberg, surgiu já um interessante debate.

 

E tudo começou com um artigo de K H Irwin (Março 7) com o título:

 

Alguma coisa está seriamente errada com a segurança em Koeberg !

 

Porque é que sempre que há qualquer problema na rede eléctrica, por menor que seja, Koeberg é obrigada a parar?

 

O que sucede é que quando a rede de transmissão está de algum modo sobre-carregada, os disjuntores começam a disparar. A perda de uma parte do sistema pode deixar Koeberg sobrecarregada o que pode levar ao seu disparo. Até aqui tudo bem.

 

Nesta situação, os técnicos em Koeberg – como em qualquer gerador nuclear – passam a confrontar-se com um gerador a plena carga “todo bem vestido mas sem sitio aonde ir”.

 

O reactor só pode reduzir a carga ligeiramente já que abaixo de um certo nível ele não permanecerá auto-sustentado. Por forma a que a central seja mantida em modo “hot standby” os técnicos são obrigados a descarregar energia térmica dos reactores para o mar, tal como alguma energia eléctrica dos geradores, para que as turbinas possam ser mantidas com o output mínimo que garanta a estabilidade térmica para um rápido relançamento.

 

A maior parte das pessoas têm a impressão que as falhas de Koeberg se devem a sobrecargas – o que é compreensível e até desejável para a maioria.

 

A verdade é que Koeberg falha é em regime de subcarga, sendo que a sobrecarga é apenas o evento de disparo.

 

A capacidade para lidar com uma subcarga, e permanecer online em modo “hot standby”, é um requisito funcional de qualquer central nuclear. Parar turbinas ou, pior ainda, parar reactores, para além dos casos de paragens planeadas, deve ser visto como um evento extremamente raro já que o seu relançamento requer um longo processo.

 

Quanto mais longa for a paragem, mais longo será o tempo de relançamento. A mim parece-me que, desde o dia em que foi construída, Koeberg nunca foi bem sucedida na lide de regimes de subcarga.

 

A Eskom esquiva-se por detrás do slogan “segurança primeiro”, mas algo está seriamente errado com a segurança em Koeberg quando a sua primeira linha de defesa – a capacidade para deslastrar carga – falha ao primeiro espirro da rede de transmissão.

 

Poderá alguém em Koeberg ou Eskom fazer o favor de responder a esta questão?

 

K H Irwin

Março 7, 2006

 

 

Dias depois, no mesmo jornal, R Mike Longden-Thurgood, membro do Institution of Nuclear Engineers, ensaia uma longa resposta da qual xitizap publica alguns excerptos:

 

Segurança nuclear torna essencial as paragens em Koeberg

 

À primeira vista, K H Irwin formula um bem pensado cenário quanto ao continuar-se o funcionamento dos geradores eléctricos usando um reactor funcionando a baixa potencia sob condições a que ele chama de “subcarga”.

 

Mas ele omitiu o aspecto mais importante do cenário: a segurança nuclear. E isto é primordial face a qualquer outra consideração.

 

Para que um reactor opere a qualquer nível de potencia, ele deve dispor de adequados fornecimentos HV (alta tensão) como backup. Os fornecimentos eléctricos HV de Gauteng e Mpumalanga constituem tais backups. Se tais fornecimentos falham totalmente, os reactores estão programados para auto-disparo, com os os geradores de standby em Koeberg e/ou os turbo-geradores em Acácia Park a entrarem em serviço para manterem o fornecimento das principais bombas de refrigeração e outros serviços auxiliares por forma a manter-se um seguro modo de paragem.

 

Nestas ocasiões, não há lugar para um standby com reactores a baixa potência.

 

Nesta recente enxurrada de paragens do reactor de Koeberg tudo correu perfeitamente, segundo parâmetros de paragem precisamente pré-determinados, e nem a segurança do reactor nem a nossa foram prejudicados no mínimo que fosse.

 

Portanto a resposta à questão de K H Irwin é: no caso de uma falha na linha de alta-tensão que cause quer uma sobrecarga quer uma subcarga, se a falha for de natureza tal que todas as linhas alternativas de backup HV quebrem simultaneamente, os reactores de Koeberg auto-disparam.

 

Com reactores intrinsecamente seguros, tais como os Westinghouse Advanced Power 1000 PWRs … poder-se-á permitir alguma leniência. Mas eu estou sendo extremamente cauteloso ao produzir esta declaração.

 

R Mike Longden-Thurgood

Member, Institution of Nuclear Engineers

 

 

Longe de esgotado, cheira-me que este oportuno debate ainda vai dar pano para algumas mangas.

 

josé lopes

março 2006

 

ps – neste texto o termo shutdown foi traduzido por paragem.

 

piruetas de um  parafuso em Koeberg

animação by ESKOM / Koeberg