xitizap # 24

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réplicas de sismos

 

 

quando aos dezanove minutos de 23 Fevereiro 2006 um sismo de magnitude 7 (Richter) abalou Moçambique, para além de mortes e medos, as ondas de choque semearam algumas perplexidades.

 

Nomeadamente perplexidades técnicas já que, pelo que se leu e ouviu no aftershock do sismo, não foi apenas o país leigo que foi apanhado com as calças na mão, literalmente, mas também muitos dos que sobre sismos deveriam exercer atenção.

 

Surpreso, e naturalmente assustado, o país subitamente percebia que, diferentemente ao que é veiculado pela geologia oficial e subsequentes normas de segurança estrutural, afinal, em Moçambique os tremores de terra fazem parte do já carregadíssimo catálogo de potenciais catástrofes naturais.

 

E este é um inadmissível hiato quando se constrói uma nova estrutura de país.

 

Muita desta fragilidade científica resulta do facto de ser relativamente recente o interesse pela geologia da zona; mas também importa notar que outra boa parte da debilidade deriva da incipiente comunicação entre os raros que a estudam e os muitos que à volta dela gravitam.

E, só para citar um exemplo, um dos sinais destes incompreensíveis distanciamentos reside na pouca atenção prestada aos vários alertas e estudos disponíveis desde há mais de 10 anos.

 

Alertas e trabalhos que foram e vão dando conta de múltiplas evidências quanto ao crescendo das dinâmicas tectónicas neste extremo sul do Vale do Rift Leste Africano – como os trabalhos da rede ESARSWG (1994-97), um grupo regional que actualmente estuda a sismologia nas zonas Leste e Sul de África e do qual, estranhamente, Moçambique não faz parte apesar da depressão do Shire o atravessar extensamente.

 

De facto, e embora permaneça obscura muita da actividade sísmica destas zonas (só há pouco mais de 40 anos ela começou a ser monitorizada), na passada década haviam já começado a surgir, e com alguma frequência, avisos emitidos por conceituados geólogos; como por exemplo Chris Hartnady, um antigo professor de geologia na UCT, que, há cerca de 4 anos (em entrevista à BBC-9  May 2002), não hesitava em colocar Moçambique e outros vizinhos desta parte sul do East African Rift, no limite geológico de uma “criticalidade fracturante”.

 

Preocupado, o Professor Hartnady referia que, nestas áreas, era muito provável que o custo económico dos desastres sísmicos e vulcânicos viesse a escalar dramaticamente ao longo do século XXI e que, embora estas áreas montanhosas pudessem parecer atractivas para implantar aproveitamentos hidroeléctricos, era fundamental notar que elas jaziam em zonas usualmente associadas a cinturas tectonicamente activas junto a falhas e rifts na crosta terrestre. Para Hartnady, não só a questão sísmica nestas áreas estava a ser subestimada, como ela talvez pudesse constituir um perigo mais real e actual que as novas alterações climáticas.

 

Na mesma ordem de análises, há anos também que foram publicados vários estudos das secções do Rio Zambeze (Zimbabwe e Zâmbia) que, para além de evidenciarem crescentes perturbações tectónicas na área, realçam o muito activo papel que os grandes reservatórios hidroeléctricos usualmente desempenham nestas perturbações.

 

Curiosamente, o mais intenso tremor de terra no vale do Zambeze aconteceu em 1963, logo após o primeiro enchimento da albufeira de Kariba, ao que se seguiram mais de 20 sismos de intensidade Richter superior a 5, entre 1963 e 1983. No mesmo sentido, vão-se tornando cada vez mais sugestivas as correlações entre secas, e menor actividade e intensidade sísmica – ou inversamente, albufeiras mais cheias, e maiores e mais frequentes sismos.

 

Num outro contexto já agora, e se for verdade que o gás natural normalmente se anicha em zonas de falhas tectónicas, talvez caiba aqui também presumir que muitos dos recentes estudos sísmicos de suporte às pesquisas de gás e petróleo conterão, certamente, inalienáveis alertas quanto a estas novas mobilidades tectónicas.

 

Entretanto, toda esta sensação de vazio me conduz à questão das barragens hidroeléctricas.

 

Em particular as da Chicamba e Cahora Bassa já que, tal como Kariba, ambas as barragens foram concebidas em épocas de muito escassa informação sísmica - o que, naturalmente, ter-se-á reflectido no projecto e dimensionamento da sua segurança estrutural.

 

Como, ainda não sei,

já que o assunto continua encapado por um perturbador véu de silêncio. Mas, mesmo assim, parece-me oportuno questionar:

 

No news is good news ?

 

Zeus queira que sim.

 

Seja como for, o que eu sei é que o surgimento de fenómenos novos, como sismos de grande intensidade, obriga os donos das barragens (neste caso a EDM e a HCB) a imediatamente reverem a segurança estrutural das suas obras e os respectivos cenários potenciais de riscos hidrodinâmicos. E a torná-los públicos para que se eleve o nível de percepção pública, e se melhorem os Planos de Contingência via reforço dos respectivos Sistemas de Segurança Integrada - um conceito que trata a segurança global das barragens com base em três pilares fundamentais: (1) técnico-operacional, (2) monitoração-vigilância e (3) gestão do risco-emergência.

 

Como é óbvio, Moçambique não pode, nem deve, ficar refém destes riscos. Mas também me parece óbvio, mandatório até, que a gestão destes mega-riscos seja elevada ao nível dos seus possíveis impactos, e das suas actuais probabilidades. E embora talvez ao Estado não compita desenvolver directamente estas acções, caberá certamente à sua administração (Ministério da Energia) velar pelo seu cumprimento por parte dos donos das obras (EDM – Chicamba e HCB – Cahora Bassa).

 

josé lopes

 

a milhas do epicentro

março 2006

 

 

Sismicidade da África leste e sul baseada no catálogo compilado por Turyomurugyendo (1996) evidenciando epicentros Ms4.0

 

 

Escala Sísmica de Richter

 

M = magnitude

 

M = 1  a 3 … registos nos sismógrafos locais, mas geralmente não é sentido.

 

M = 3 a 4 … frequentemente sentido, não há danos.

 

M = 5 ……. Sentido em muitas zonas, ligeiros danos junto ao epicentro.

 

M = 6 ……. Danos em construções precárias e outras estruturas num raio de 10 Km.

 

M = 7 ……. MAJOR tremor de terra, causa sérios danos num raio até 100 km (recentes na Turquia, Kobe, Japão, Califórnia, e Moçambique)

 

M = 8 …… GRANDE tremor de terra, grande destruição, perdas de vida ao longo de raios de mais de 100 km (1949 Queen Charlote Islands)

 

M = 9 …… um RARO GRANDE TERRAMOTO, grandes danos em regiões a mais de 1000 km (Chile 1960, Alaska 1964, British Columbia, Washington, Oregon 1700).

 

 

fonte: Natural Resources, Canada