maputo 2010

xitizap # 3    maio 2003

 

 

a cidade e o transporte público

 

 

Em Maputo 2003, o transporte público urbano é uma outra bomba ao retardador.

 

E assim é porque a mega Maputo se vai tornando cada vez mais num espaço (des)urbano onde só impera o automóvel – potente, macho (?), 4x4. TOP de gama.

 

Um espaço onde se espezinha os que não o têm - uma maioria enxotada para o indizível conforto dos chapas, ou que, a pé, calcorreia valas, fossas e buracos ... os ex-passeios públicos.

 

Tudo somado, esta é uma maioria de 90% de urbanos que, atónita, se questiona quanto ao desenfreado exibicionismo do motor em Maputo.

 

Maputo, uma cidade em que a desorganizada adopção de um horário único apenas veio agravar a improdutividade das elites, a poluição e o esbanjamento energético - e os seus dramáticos problemas de transporte, que vão do insuportável número de acidentes à falta de manutenção básica das rodovias. Ou da indecência do trânsito, ao desproporcionado esforço que vai esvaindo os despojados.

 

E se eles - despojados - não se levantarem, então a situação tornar-se-á incontrolável, para não dizer irrecuperável.

 

Mas, como em tantas outras cidades, em Maputo os despojados têm uma agenda simples, e minimalista em termos de trânsito.

 

Uma agenda que começa por exigir a adopção de um survival package – tentativamente estruturante (seja lá o que isso signifique). Um pacote onde se incluem medidas clássicas, como a reserva de direitos de passagem e a dignificação do Transporte Público. Um survival package que comece a devolver aos citadinos o primado sobre o império do motor.

 

Entretanto, note-se que em Maputo a frota de potentes automóveis, jeeps e pick-ups 4x4 apresenta uma intrigante distorção. Em particular se repararmos no produto citadino bruto e o compararmos com o de urbes vizinhas tendencialmente próximas (estatisticamente).

 

Aliás, basta analisar os racios de cilindrada urbana per capita e a sua esfuziante evolução - racios que se engasgam com o exibicionismo dos picos de ponta - 4 ou 6 vezes por dia -, e com um tesão que só pode ser de buzina. Picos durante os quais esses carros e jipões, intrigantemente quasi-sempre vazios, vão à parada dos cavalitos usualmente alinhados em esquadrilhas corporativas por doador, empresa, banco, ministério ou repartição pública. E nem mesmo Freud perceberia porque insistem eles em engalfinhar-se nos mesmo bares, esquinas e cruzamentos - e sempre com o celular na boca.

 

Mas, para que tudo isto aconteça, só poderá haver uma razão

 

alguém anda a subsidiar paradas motorizadas!

 

 

Curiosamente,

 

tudo indica que sejam os tesouros públicos - do Estado, e dos doadores internacionais.

 

E esta é uma distorção tanto mais difícil de entender quanto estes são Estados que não conseguem melhorar a transitabilidade das pessoas, ou sequer das ruas para os automóveis que compram.

 

E o que é mais grave é que o síndrome kompressor class poderá agravar-se, e aceleradamente, já que ninguém duvida que os carros e carrões continuem sempre aí à mão nos frenéticos stands, ou no contrabando.

 

Belos, potentes e disponíveis - mas só para quem não os paga com dinheiro próprio e qe por isso mesmo pouco se importam em comprar veículos de $ 20,000 a preços de Ferrari. E que nem sequer se ralam com os 17 ou 25 ou 36 litros aos 100 do combustível que gastam, provavelmente porque financiados pelos mesmos tesouros públicos.

 

Sucede que, nestes interstícios das motorizadas elites, as evidências sugerem que os não-motorizados são 90% dos citadinos.

 

E porque este modelo moto-centrista não serve, tudo indica que seja hora para visionar um novo conceito de Transporte Público - público, não no sentido de posse, mas no sentido de desígnio.

 

Um conceito que privilegie as óbvias rentabilidades do transporte público e que tenha em conta, por exemplo, que uma faixa automóvel poderá servir 2,000 passageiros por hora, no limite - versus os 60,000 da tracção eléctrica a uma fracção desse custo energético.

 

Um conceito que, ao invés da situação actual, racionalize a cooperação modal entre os vários meios de transporte numa matriz em que se usam metros de superfície em rotas de elevada densidade (pessoas e mercadorias) na cintura peri-urbana – e com decente segurança-, e em que autocarros e trolley-buses servem rotas intra-urbanas entregando passageiros a plataformas locais - aos chapix (um híbrido de chapas e taxis).

 

A ver vamos ...

continua - click & leia maputo 2010: a dream city?

 

maputo 2010