xitizap # 27

Gás em Maputo

uma proposta indecente

se temos tanto ...

Percalços  LPG

LPG @ Matola

Os cardeais EUROSTAT

Soltas

xitizap # 27

 

Inverno 2006

 

 

Fugas de Gás

 

… e o efeito boomerang

 

 

Há meses que falta gás em Maputo, e a cidade re-vive cenários dos anos 1980’s.

 

Enxames de consumidores de LPG (butano propanado) serpenteiam esperas nos postos de venda. Vozeia-se contra o açambarcamento da escassa riqueza. Neste entretanto, o valor da garrafa de gás mais que triplicou, a biomassa energética regressou aos prédios e, para a imensa maioria dos ainda mais pobres, os preços da lenha e carvão continuam a subir em flecha.

 

Infelizmente, este regresso aos tristes anos 1980’s não tem nada a ver com qualquer dos filmes recentemente rodados em Maputo.

 

No caso, LPG em Maputo é tristemente real e, tal como em qualquer fita XXX, quem se lixa é o consumidor desprotegido.

 

Produzido pelas multinacionais do petróleo, LPG em Maputo é um filme que decorre em cenários de escandalosos lucros alavancados pelo crude oil a $ 80/bbl e, no essencial, a fita visa relembrar os consumidores quanto à nula consideração que eles merecem - em particular quando não há, ou não se quer exercer, a mínima regulamentação sobre proto-capitalismos selváticos.

 

O enredo do filme gira à volta de enigmáticos contratos de compra-venda de LPG (Liquified Petroleum Gas) celebrados entre fornecedores sul-africanos e a IMOPETRO - uma holding local das multinacionais do petróleo. E o mistério atinge o clímax quando finalmente se revela que, afinal, os mais básicos preceitos contratuais dos concursos públicos podem não passar de letra morta.

 

Sem glamorosas vedetas, o cast de LPG em Maputo conta com a mão invisível das petro-multinacionais e, naturalmente, com o povão consumidor de LPG como massa de figurantes. Na esteira do mais clássico sub-realismo, os figurantes-consumidores são sempre feios, porcos e maus … frequentemente refilões.

 

Tudo indicava que o filme poderia vir a suscitar alguns interessantes casos legais no domínio da protecção dos consumidores, não fora o caso de alguém ter trocado umas bobines da película.

 

De facto, quando a procissão IMOPETRO ainda ia no adro das responsabilizações e, eventualmente, das devidas compensações contratuais, atónitos, os consumidores constatam que ao invés de se insistir em que a IMOPETRO (Petromoc, Galp-Moçacor, BP, Shell, Total, Engen, Sasol, etc) continuasse a figurar como O Grande Causador da falta de gás, eis que o Ministério da Energia se decide a protagonizar o filme LPG em Maputo.

 

Não é fácil entender este energético propósito governamental.

Particularmente porque, em vez de se enfatizar o direito dos desprotegidos consumidores, e o justamente esperado quesito legal contra o escandaloso incumprimento de um contrato público, estranhamente, o ministério entra em rota de desculpabilização da IMOPETRO e associados.

 

Diluída a responsabilidade pública das petro-corporações, e mercê desta surpreendente iniciativa mediática, o Ministério da Energia oferecia-se assim como alvo central das críticas do povão consumidor de LPG.

 

A partir daí, o que se viu foi pouco gratificante – as informações ministeriais contradiziam-se, os prazos de restabelecimento da ordem gasosa não eram cumpridos, as promessas mais pareciam bolhas de gás.

 

Confortadas pela benesse governamental, as petro-corporações agradeceram este inesperado escudo de des-responsabilização e, paulatinamente, regressaram ao móbil do lucro, quiçá cogitando a nova subida de preços.

 

No mínimo, e até por definição funcional, esta despropositada cobertura às petro-corporações estava destinada a correr mal e, a meio da crise, o Ministro da Energia viu-se obrigado a pedir desculpas públicas aos consumidores.

No entretanto, das petro-corporações nada se ouve.

 

Mas dificilmente a questão LPG poderia acabar por aqui já que, não só continua a faltar gás, como também parece que a economia comandada volta a aparecer.

 

O povão consumidor de LPG, esse, insiste:

 

mas como é que falta gás se temos tanto?

 

 

josé lopes

 

julho 2006

numa fila da Moçacor

 

 

Em Maputo, o gás doméstico (LPG) continua escasso - inatingível até.

 

Hoje, 28 Julho 2006, o Ministério da Energia (ME) anunciou uma nova mexida nos preços dos combustíveis.

 

Surpreendentemente, o preço do inexistente LPG desceu 6.8%.

 

Há dias, e a propósito de um novo concurso para o fornecimento do LPG, que escasseia por aqui e na RSA, o ME havia sugerido a hipótese de um aumento dos novos preços do LPG.

 

Guess the signals …

Photos by Funcho (João Costa)