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xitizap # 27

 

Inverno 2006

 

 

 

LPG – innuendos de uma crise

 

Quem quisesse dar-se ao trabalho de estar atento ao mercado energético da África Austral, há muito que teria reparado nas convulsões que se antecipavam para o LPG (butano propanado) e demais derivados de petróleo.

 

Desde Novembro 2005 que os sinais eram evidentes e, em contraste com as tergiversações locais, para Lindiwe Hendricks, Ministra dos Minerais e Energia da África do Sul, não havia dúvidas que a responsabilidade da crise cabia, inteirinha, às petro-corporações.

 

Toda a gente sabe que é à indústria (petrolífera) que deve ser atribuída a culpa ” - declarou Lindiwe Hendricks ao Parlamento sul-africano em 13 Dezembro 2005 (Reuters/BBC).

 

Embora sejam vários os determinantes desta crise de combustíveis, a introdução da nova gasolina sem chumbo e a redução do teor de enxofre no diesel em Janeiro 2006 funcionaram como rastilho já que, mercê de um mau planeamento de projectos e operações por parte das petro-corporações, o investimento de 10 biliões de Rands na adaptação das refinarias não correu, nem corre, conforme o calendário contratualmente previsto.

 

E se a isto se juntar a imprudente insuficiência de stocks de segurança em época de conturbada volatilidade petrolífera, não será difícil imaginar a dimensão dos problemas que as petro-corporações continuam a infligir à socio-economia da África do Sul e países vizinhos (Moçambique, Botswana, Namíbia).

 

Entretanto, tudo indica que este innuendo poderá vir a agravar-se.

 

Em recentes declarações à Reuters (26 Julho 2006), Colin McClelland, director da SAPIA (South Africa Petroleum Industry Association), advertiu quanto à possibilidade de a escassez de refinados poder vir a tornar-se um problema de longo prazo - lançando assim um alerta quanto à pressão que o crescimento económico sul-africano tem vindo a exercer na demanda de refinação e transporte das actuais capacidades instaladas.

 

Segundo Colin McClelland, a actual capacidade de refinação na África do Sul está limitada a 501 000 bpd (barril por dia), e não será suficiente para satisfazer os projectados 6% de crescimento económico anual da África do Sul. E, para ele, o recurso às importações de derivados é inevitável … até que se atinjam níveis que a indústria deles considere como justificativos de novas refinarias e/ou expansão das actuais.

 

Contudo, embora inserida nesta pirueta da oferta-demanda de refinados, a questão LPG tem contornos adicionais que, pelo menos por cá, deveriam ter merecido atenção por parte de quem é pago para deles cuidar.

 

Senão vejamos.

 

Quando em meados de 2004 o governo sul-africano concluíu que a electrificação nacional, por si só, não resolveria as necessidades energéticas da maioria sul-africana, em particular as térmicas da cozinha e aquecimento, as autoridades decidiram então lançar um ambicioso programa de promoção subsidiada do LPG como “o combustível térmico preferido pelos pobres”.

 

Em conjunto com a BP (BP Gas), a Shell (Easigas), Afrox (Handigas) e Total (Totalgaz), o governo sul-africano começou então a fomentar, e a subsidiar generosamente, um programa visando, até Março 2005, atrair para a esfera LPG cerca de 250,000 habitações de baixa renda - e pelo menos mais 3 milhões de habitações até 2008.

 

Como é óbvio, o consumo de LPG, que até então exibia pouca elasticidade e penetração no mercado sul-africano, começou a disparar.

 

Já menos óbvio me parece o facto de as petro-corporações não terem previsto que as 400,000 toneladas anuais de LPG das suas refinarias seriam rapidamente absorvidas por um mercado em explosão subsidiária. E bastava fazer as contas a 6 kg por família-mês para perceber por onde andam, histericamente, as actuais 30,000 toneladas consumidas por mês na África do Sul. Fora os vizinhos sem chucha na botija.

 

Em particular porque, melhor que nós todos, as petro-multinacionais sabem que, para além das necessidades próprias derivadas de requisitos de segurança e operação das suas refinarias, o LPG, na sequência da proibição da gasolina sem chumbo, passou a ter um inestimável valor na produção de componentes aditivos com alta octanagem - como o isómero trimetil-pentano, por exemplo.

 

E como se tudo isto não bastasse para nos configurar um cenário de grande pressão sobre o LPG, eis que, em Dezembro 2005, um arreliador parafuso viria a provocar sucessivas paragens na central electro-nuclear de Koeberg. Os blackouts sucederam-se, e, com a aproximação do Inverno, a Eskom viu-se obrigada a propagar várias medidas de poupança de electricidade na tentativa de mitigar a crise; para além da distribuição gratuita de mais de um milhão de lâmpadas eficientes, rapidamente a Eskom implementou um programa de gratuita substituição de milhares e milhares de fogões eléctricos por aparelhos consumindo LPG.

 

Mergulhada em incapacidades próprias, a indústria LPG passou então a queixar-se da Eskom, argumentando que a falta de coordenação entre programas havia pressionada uma inusitada demanda. Num outro fogo-de-artifício, poucas semanas depois, a indústria LPG descobria mais um bode expiatório e passava agora a culpabilizar a Transnet e o sector de transportes - invocando falta de meios ferro-rodoviários para suster a distribuição LPG.

 

Embora esta torrente de esfarrapadas escusas petro-corporativas de pouco me sirva quando (raramente) cozinho, há uma outra coisa que eu continuo a não perceber: o alcance e significado da joint-venture Petromoc e Sasol SARL.

 

É que, comercialmente estabelecida em 31 de Julho 2001, esta joint-venture visava a entrada da Sasol no marketing directo dos seus produtos em Moçambique através da maior rede de distribuição do país, a da Petromoc. E, segundo na altura se anunciava, era suposto que a joint-venture entre estas duas petro-corporações potenciaria novas sinergias comerciais … no âmbito da exportação do gás natural de Moçambique para a Sasol.

 

Embora este acordo pareça ter funcionado em tempos de bonança, percebe-se mal a disfuncionalidade logo que surgiu a primeira crise. Em particular porque, sendo a Sasol um dos maiores produtores sul-africanos de LPG, em boa parte por recurso ao gás natural que desde 2004 importa de Moçambique, é difícil entender como é que a IMOPETRO e Petromoc não conseguiram negociar, pelo menos com a Sasol, as suas pequeníssimas necessidades – menos de 5% da produção LPG da Sasol.

 

E se entre parceiros estratégicos os negócios funcionam assim, então, algo vai mal, muito mal mesmo, no reino dos gases.

 

josé lopes

 

ainda sem LPG (30 Julho)

 

 

Metano, Propano e Butano

 

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