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desde há muito que no Oriente as 4 estrelas do Cruzeiro do Sul são objecto de veneração. E várias são as conotações místicas que se lhes atribuem
e se há 5000 anos todas as suas estrelas se situavam 7° acima do horizonte indigena do Báltico (latitude Norte 52° 30’), três mil anos depois, e por alturas da cruxificação de Cristo, já essas mesmas estrelas se situavam no horizonte baixo de Jerusalém (31° 46’45”) um horizonte tão baixo que, poucos séculos depois da cruxificação de Jesus Cristo, a Crux deixou de ser vista na sua totalidade nos céus de Jerusalém — um facto que viria a alimentar não poucas conotações religiosas
e é bom notar que tudo isto são factos. Factos que, ao invés de mágicas celestiais, derivam antes e apenas do fenómeno conhecido como precessão dos equinócios — a oscilação dos polos da terra em torno do polo da ecliptica em ciclos de 25.800 anos. Razão pela qual, a Crux tem vindo a ser arrastada cada vez mais para Sul. A ponto de que, hoje por hoje, o Cruzeiro do Sul só pode ser observado em latitudes a sul do paralelo 27° N
No Almagest (Syntaxis), Claudius Ptolomeu (c. 85-165 dC), um astrónomo grego que viveu em Alexandria, não definia o Cruzeiro do Sul como constelação autónoma. Para ele, a crux fazia parte da constelação Centauro. E assim ditou a astronomia, durante os 1500 anos seguintes
a classificação do Cruzeiro do Sul como constelação autónoma é frequentemente atribuída a Augustin Royer (1679) - embora a Crux haja sido tema de várias descrições mais de 200 anos antes dessa sistematização de Royer. Como por exemplo, no globo celestial ilustrado por Mollineux de Inglaterra em 1592, onde a Crux aparece ao lado de outras novas figuras do hemisfério Sul. Ou em Uranometria (1603) onde Johann Bayer desenha a Crux nas patas de corça de Centauro, descrevendo-a como modernis crux, Ptolemaeo pedes Centauri. E Caesius cataloga-a em 1622 como uma bem conhecida constelação
intrigantemente, poucas são as alusões poéticas que a Crux motivou antes que Dante Alighieri (1265-1321) pareça ter-se referido à constelação aquando da contemplação do Purgatório, na Divina Comédia. É pelo menos o que diz Alexander von Humboldt, no seu Examen Criticum, quando insiste que Dante se referia à Crux. E Longfellow considera mesmo que as 4 estrelas do Cruzeiro do Sul representarão as 4 virtudes cardinais de Cato, o guardião do purgatório: Justiça, Prudencia, Fortitude e Temperança
Vespucci, na sua terceira viagem em 1501, já aludia à Divina Comédia considerando-se o primeiro europeu a ter observado as 4 estrelas de Dante - a que deu o nome de Mandorla. Vários são os cronistas do século XVI que se referem à Crux, em relatos de navegação pelo Sul. Corsali em 1517 refere-se a uma bela cruz por cima das Nuvens de Magalhães, e Pigafetta, um companheiro de Fernão de Magalhães, menciona O Cruzeiro como uma maravilhosa cruz usada para a determinação de altitudes. Nos Lusíadas, Camões reporta um grupo bastante novo, no novo hemisfério, ainda não visto por outros
por volta de 1570, Cristovão da Costa considera a Crux como o Relógio Celestial do Sul
um recurso de navegação que viria a tornar-se crucial durante mais de 400 anos. Para eles, navegadores, o Cruzeiro do Sul era o único relógio disponível — quando a constelação lhes passava pelo meridiano do lugar, a Crux punha-se como que direita, e em pé. E por esse modo, quem estudasse a inclinação do Cruzeiro do Sul relativamente à perpendicular do lugar seria capaz de calcular o seu tempo presente. Note-se que os relógios de longitude só chegaram muito mais tarde— quase 300 anos depois
fonte: Star Names, Their Lore and Meaning by Richard Hinckley Allen
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