allo Bagdad

 

 

em Maputo era o meio-dia de Abril 8

e no meu escritório a TV 5 passava imagens de Bagdad – sem som

 

de súbito a electricidade vai-se, e com ela tudo o resto que eu queria fazer. Cinco segundos depois do corte - e após backups no PC - o velho UPS deixava-me ainda saber, via satélite, que o CENTCOM confirmava não ter perdido mísseis em Maputo. E nem eu havia ouvido estrondos

pelo sim e pelo não pus a TV mais alto. Nestas coisas de multimedia nunca se sabe se os mísseis chegam via écrans – inteligentes e silenciosos

 

mas mau tempo também não seria razão para mais um insuportável corte – lá fora, nem trovoadas, nem chuvas, nem sequer brisa de vento. Quase só lixos

 

Foi quando me lembrei que habitava o reino EDM (Electricidade de Moçambique)

 

Um reino de cortes, e côrtes. Um reino que só na semana anterior me havia chutado com 3 ou 4 cortes – e de novo sem causa aparente. Novamente sem explicações

 

E estes eram cortes estranhamente seguidos por 6 a 7 tentativas de religação. Todas elas insucedidas. Pior que tudo, estes cortes EDM eram autenticas bombas de fragmentação. Bombas que suprimem a mais resistente electrónica e que, en passant, destroiem compressores, geleiras, fogões, aparelhagens – TUDO

não são as tais E-bombs, mas andam lá perto. E se destas bombas porventura restarem sobras eléctricas, a EDM pode ainda apelar a outras insuficiencias. Basta chamar ao palco as habituais oscilações, ou as brusquíssimas quedas de tensão (as cavas de voltagem, como eles dizem)

 

Só após 3 horas e meia (às 15:30) readquiri electricidade EDM. E uma vez mais a  perplexidade invadia-me:

 

 

o que será que se passa com a EDM ?

 

 

Porque ao contrário de um Bagdad eléctrico que debaixo de fogo sabia resistir, nem que fosse para iluminar as margens do Tigre,

Text Box: a qualidade na EDM
Text Box: EDM à venda

citando o Ministro dos Recursos Minerais e Energia de Moçambique,  o Business Report (Sguazzin, abril 8, 2003) informa que o governo de Moçambique se prepara para vender parcelas da EDM 

não foram referidas as percentagens de controle accionista, ou os montantes e timing da hipotética transacção 
Text Box: allo !
Text Box: xitizap #2

a qualidade na EDM

Text Box: preto & branco
Text Box: astro stuff
Text Box: fotofolio
José Cabral
Text Box: links & downloads

por aqui a EDM parecia-me cada vez mais uma côrte que se passeava nua. A plantar lampiões na escuridão

 

 

E no entanto, Bagdad podia até queixar-se de uma outra Gulf War que há 13 anos havia destruído 90% do seu sistema eléctrico – dos 9000 MW de produção em 1990, da guerra sobraram 340 MW em 1991, e muito pouco das redes de transmissão e distribuição – as 10 subestações que serviam Bagdad foram na altura destruídas. Tal como mais de 30% da rede 400 kV

 

Surpreendentemente, e apesar das sanções ONU e dos mega-gamanços da elite Saddam, a empresa de electricidade iraquiana havia conseguido recompor-se – e com apreciável dignidade técnica. A ponto de uns anos depois, e à entrada desta nova guerra de 2003, uma boa metade das infra-estruturas eléctricas estarem já em serviço, e segundo padrões de qualidade técnica. Aliás, note-se que em 2003 os neo contractors US/Uk instruiram os cruzados para não tocar nessas instalações. Para eles, a coisa estava bem, e os técnicos da Electricidade Iraque eram dos melhores. Mais a mais, hoje em dia, destruir infra-estruturas é meio caminho andado para tribunais internacionais. Desgraçadamente, esqueceram-se foi dos museus. E por isso não há como lhes perdoar

 

E há aqui uma intrigante coincidência porque é exactamente nesse mesmo ano de 1992, que dois países e duas empresas estatais iniciavam processos de recuperação de destrutivas guerras

Notem-se ainda alguns outros paralelos. Isto porque nessa altura quer a EDM quer a Irak Electricity Authority contavam com equipas que, embora cansadas de guerra, permaneciam motivadas para a reconstrução, e agora em paz

 

curiosamente, havia ainda uma outra similitude – o investimento em ambas as empresas estava à mercê dos doadores e multilaterais do costume. ou seja, era escasso e condicionado. Por isso, de um lado e outro, havia que fazer o melhor na promoção do acesso à electricidade, e garantir condições de infra-estrutura para captação de novos investimentos. Tarefas que, porque normalmente contratadas a terceiros, nunca foram o osso duro na gestão de empresas de electricidade. Duro, duro, é e será gerir investimentos no dia a seguir às pomposas inaugurações

 

E talvez aí acabem os paralelos. Porque, se por um lado a Electricidade do Iraque mostrava investimento, trabalho e progressiva qualidade de serviço, por aqui, nos últimos 5 ou 6 anos, a EDM expunha apenas investimento público – e um surpreendente declínio de qualidade

e isto não pode ser resultado de uma qualquer falta de competências. Pelo contrário, a EDM talvez seja a empresa pública mais densamente povoada por engenheiros e economistas e doutores e assessores – para além de toda a sorte de consultores

 

mas as competências gerem-se, e fomentam-se. Não se expandem por germinação espontânea, e nem sequer amadurecem sem trabalho. E sem gestão e atitude operacional, não há investimento que resista - mesmo que se gastem milhões em nome da qualidade de serviço

 

qualidade é coisa que se puxa por ela – não vem por decreto

 

Quanto a mim, esta diferença de atitudes entre Bagdad e Maputo, ou entre Basra e Beira, ou Mosul e Inhambane, só poderá resultar de duas distintas visões de serviço público de electricidade – e de gestão do futuro

 

E vale a pena aqui notar que, se por alguma ignota razão se pretender vender 30% de um bem público como a EDM, normalmente a primeira coisa a fazer é melhorar os seus rácios – operacionais, e de gestão, entre outros. A menos que se queira vender a EDM numa rapidinha, e ao desbarato – transa sem futuro

 

Mas nos entretantos das vendas ou das não-vendas, ou dos porquês da alienação de um crucial património público, é sempre desejável que os consumidores se informem sobre o que deve ser uma decente qualidade de serviço. E que saibam dos direitos e deveres das partes. Afinal, se não me engano, os consumidores são, ou deveriam ser, a razão primeira da EDM

 

e é por isso que xitizap abre um espaço para a discussão pública do conceito e prática da qualidade de serviço eléctrico (ver page 5). E convida todos os interessados a nela participarem, particularmente a EDM e os consumidores

 

Entretanto, em Inhambane já era 17 de Abril e um outro corte de 4 horas fez-me lembrar a Beira. Uma cidade onde os incrédulos consumidores enfrentam a inescapável escuridão das sete da tarde. E o abandono a que a EDM vota as valiosas centrais de Mavuzi e Chicamba, preterindo-as em favor de um fornecimento via Cahora Bassa

 

E estranhamente, tudo isto acontece numa altura em que Cahora Bassa enseca geradores para mega revisões. Num oportuno programa de 40 milhões de euros que, após 19 meses de trabalho, permitirá à HCB elevar a qualidade de fornecimentos a partir do segundo semestre de 2004. Mas o que não se percebe é como a EDM garantirá reservas de produção para alimentar a zona Centro durante este intrigante caso de planeamento estratégico

 

josé lopes

 

maputo, inhambane, abril 2003

 

 

ps - devido aos cortes de abril 25 em maputo, xitizap #2 só estará on-line a 27 (se Zeus quiser)

xitizap no. 2       abril 2003