xitizap - posfácio F

o Bom

o Mau

… e o Feio

 

o Mau

 

Mais aumentos tarifários? Mais geleiras e aparelhagens electrocutadas em cortes e oscilações? Mais perdas eléctricas inadmissíveis? Mais blackouts? – sem dúvida um bom rol de hipóteses para o papel de Mau da fita, mas o vencedor do casting para estas cowboyadas foi: CESUL !!!

 

CESUL é um projecto de transmissão eléctrica que, com intuito de serventia à miragem barragista de Mphanda Nkuwa, as autoridades moçambicanas insistem em colocar no topo da sua agenda de investimentos públicos.

 

De acordo com os números mais recentes (Novembro 2011), só os requisitos financeiros da Fase 1 do projecto CESUL já roçam os 3 biliões de dólares, supostamente a serem mobilizados a partir de empréstimos comerciais com juros anuais de 8-8.5%; segundo os promotores, esta CESUL Fase 1 começará a evacuar mega-exportações de Mphanda Nkuwa para a África do Sul em Janeiro de 2017, ao módico preço de 10.5 USc/kWh na fronteira; em linha com as tradicionais piruetas técnicas em que tem sido pródigo, o projecto CESUL voltou agora a sofrer mais uma metamorfose voltaica: o sistema de corrente contínua já não será servido aos mirabolantes ± 800 kV UHVDC mas tão só a ± 500 kV HVDC, e os sistemas de corrente alternada 400 kV utilizarão equipamentos preparados para 550 kV; sempre segundo estes promotores CESUL, esta será a concatenação técnico-económica de mais baixo custo para a evacuação de 3100 MW de Tete para o sul de Moçambique.

 

o Bom, o Mau e o Feio

 

cowboyadas electrizantes em Moçambique 2012

Como repetidamente tenho afirmado, não só não se verificará qualquer demanda eléctrica que suporte o CESUL até 2020 - nem exportações para a África do Sul, nem Mozal 3, nem metalurgias titaníferas no Chibuto, nem nada de novo que se pareça com 5% da potência a instalar nas subestações 400 kV (125, 400 e 500 MVA) -, como também não se cumprirá o condicionalismo vital1 que o projecto CESUL se auto-impôs: Mphanda Nkuwa em operação a partir de 2017.

 

Cientes da inviabilidade económica CESUL (as-it-is), os promotores passaram recentemente a jogar a cartada securitária como o principal objectivo do projecto: “tornar o Sul de Moçambique electricamente independente do trânsito através da África do Sul”.

 

Independentemente do mérito que este ideal securitário possa vir a ter – e aqui não se discute se 3 biliões de dólares serão ou não o preço a pagar por uma “independência eléctrica do Sul” face a riscos sul-africanos que desconheço –, importa destacar duas coisas: primeiro, parece paradoxal categorizar-se um vizinho (RSA) como não confiável em questões de trânsito eléctrico, numa altura em que se procura conquistá-lo como mercado de mega-exportações eléctricas; segundo, a rota escolhida para a linha HVDC-CESUL é um aborto securitário e nada tem de uma propalada “espinha dorsal”.

 

Na verdade, o muito Mau trajecto desta rota HVDC é resultado de um velha teimosia da EDM: a insistência em se construir ao longo da estrada nacional no1 (EN1) uma linha 400 kV AC perfeitamente desnecessária e tecnicamente pouco segura; daí que, por muito cómodo arrastamento, os consultores CE$$UL se viram tentados a empurrar a rota HVDC para um trajecto permeado por três crassos erros securitários: (i) aumento da exposição fronteiriça de infra-estruturas eléctricas vitais (RSA e Zimbabwe); (ii) opção por um trajecto que se desenvolve em zonas caracterizadas por fortes riscos de sismos e cheias e, terceiro e muito grave também, ao paralelizar-se o novo sistema com o actual corredor HCB (Songo-Apolo) concentram-se vulnerabilidades infelizmente bem conhecidas (sabotagens e roubos p.e.).

 

Embora eu não descortine qualquer hipótese de o projecto CESUL se materializar antes de 2023, considero oportuno antecipar que, no futuro, e uma vez assegurada a viabilidade económica de uma evacuação eléctrica Tete-Maputo, será importante aquilatarem-se as vantagens técnicas de um único sistema multi-terminal HVDC que, desenvolvido ao longo da EN1, ofereça saídas eléctricas AC na zona de Vilankulu; mas, talvez mais importante ainda, parece-me ser a necessidade de, tal como nas questões ambientais, se promoverem reflexões securitárias sempre que nas pranchetas se idealizam infra-estruturas vitais (eléctricas, rodo-ferroviárias, portuárias, fluviais, pipelines p.e.).

 

 

josé lopes

 

março 2012

 

 

1  “A realização atempada do projecto de Mphanda Nkuwa é a chave para que se comece o desenvolvimento CESUL” in Estudo de Viabilidade CESUL