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van Gogh e os astros

 

 

sempre que observo a Caixa de Jóias,

NGC 4755 junto ao Cruzeiro do Sul, vêm-me à mente as expressões de Vincent van Gogh numa carta a seu irmão Theo (19 junho 1888):

 

No azul profundo as estrelas eram cintilantemente esverdeadas, amarelas, brancas, cor-de-rosa, de um brilhante mais vítreo do que em casa – mesmo em Paris: chame-se-lhes opalas, esmeraldas, lapis lazuli, rubis, safiras.

 

Certas estrelas são amarelo-limão, outras têm um rubor rosa, ou um verde ou azul ou um brilho que não se esquece. E sem querer alargar-me neste assunto torna-se suficientemente claro que colocar pequenos pontos brancos numa superfície azul-preta não basta.

 

Segundo se conta, os interesses de Vicent van Gogh pela astronomia foram desenvolvendo-se à medida que lhe germinavam pensamentos quanto à relação entre o homem e o cosmos; altura em que começou a pintar quadros em que o cosmos aparecia figurado, em parte para alargar a perspectiva das relações humanas retratadas no mesmo quadro.

 

Noite Estrelada (starry night), actualmente no MOMA em New York, é o melhor exemplo disso. O quadro mostra uma aldeola francesa em noite de Lua crescente, Venus (uma estrela brilhante) e a Via Láctea em turbilhão. A aldeola é esmagada pela majestade do céu e o próprio pináculo da igreja, representando a maior conquista espiritual do homem, é insignificante.

 

Starry Night pode ser datado a partir de cartas que Vincent enviou à sua irmã e irmão, e terá sido completada por volta de 16-18 Junho 1889 em Saint-Rémy. Segundo Charles Whitney, na altura Venus estava em época matinal e a Via Láctea deveria ser vista a Este durante a tarde, e mais alta durante a aurora. No verão anterior, Vincent havia mencionado a “brancura azul” da Via Láctea numa carta a seu irmão Theo pelo que ela deveria ser-lhe familiar. Contudo, as datas da Lua em crescente não condizem com as datas da obra. Por essa altura a Lua estava convexa, entre lua cheia e três quartos. A Lua é pintada no canto da pintura, obviamente posicionada e moldada por razões de composição.

 

Quanto às posições dos objectos celestiais, Vincente van Gogh tomou liberdades similares em Estrada com Cipestre e Estrela. A pintura mostra uma Lua em delgado quarto crescente e duas estrelas brilhantes em linha mais ou menos horizontal. Com base em correspondencias, os historiadores de arte concluiram que o quadro teria sido pintado pouco antes de Vincent ter deixado Saint-Rémy (16 Maio 1890).

O físico Donald Olson viria a estabelecer que, em 20 de Abril desse ano, a Lua em crescendo estaria posicionada perto de Venus e Mercúrio, com a mesma orientação – mas em posição invertida, da esquerda para a direita. O agrupamento planetário era suficientemente espectacular para, já na altura, ter sido previsto pelos media como uma visão celestial. Provavelmente, Vincent inverteu a orientação por razões de composição. Coisa que ele anteriromente já havia feito numa pintura chamada Noite Estrelada no Ródano (outono de 1888) que mostra a Ursa Maior. A paisagem é vista em sudeste onde a Ursa Maior nunca aparece já que é uma constelação circunpolar do norte. Vincent moveu as estrelas para fazer uma melhor pintura.

 

Dadas as liberdades artísticas de van Gogh, muitas dúvidas persistiram quanto ao astro pintado de laranja-vermelho em Moonrise – tratar-se-ia do Sol ou da Lua?

 

É que, apesar de nos anos 1930’s ter aparecido uma carta de van Gogh dirigida a Theo descrevendo o astro como sendo a Lua, muitos historiadores duvidaram da autenticidade desta carta não datada - e que era suposto ter sido escrita durante o período em que o pintor esteve internado em Saint-Rémy.

 

Para ajudar a esclarecer o mistério, o físico Donald Olson (Southwets Texas State University) decidiu-se por mais uma “útil lição de astronomia” e, desta vez, analisou a posição da Lua em Saint-Rémy à época da pintura. Acompanhado por Marilynn Olson (sua esposa) e Russel Doescher (físico), Donald Olson passou seis dias a pesquisar o local onde estaria van Gogh quando pintou Moonrise – através de medições da paisagem que Vincent abordou mais de uma dúzia de vezes: o telheiro ao lado de um muro de pedras, colinas redondas, um penhasco suspenso.

 

De regresso ao Texas, a equipa introduziu as coordenadas num computador com o objectivo de se determinar a data e hora exacta a que, em 1889, uma Lua cheia ou quasi-cheia se teria exposto por detrás do rochedo entre Maio e Setembro. Maio 16 e Julho 13 surgiram como possibilidades mas a equipa decidiu eliminar Maio já que van Gogh havia escrito uma carta descrevendo os campos como verdes em Maio – e não dourados como aparecem pintados em Moonrise. A partir daí, a equipa conseguiu determinar que, mais minuto menos minuto, a Lua havia estado naquela posição por volta das 9.08 da noite, em 13 Julho 1889.

 

 

zeca bamboo

 

 

fonte: Paul Murdin e Sky & Telescope

 

ps – pelo sim e pelo não, há que lembrar que vários historiadores de arte confirmam que, durante a fase final do seu internato em Saint-Rémy, Vincent van Gogh raramente saía do quarto … preferindo pintar post-impressões.