um Chapéu Chinês

 

Dois meses e meio após o apagão que em 10 de Novembro (2009) deixou 80 milhões de brasileiros às escuras durante mais de 2 horas, ainda não se conhecem os resultados do respectivo inquérito oficial.

 

Sobre esta súbita perda de 28 980 MW que afectou 18 Estados no Brasil, e todo o Paraguai, as informações disponíveis são escassas, e em alguns casos contraditórias – o que é pena dada a importância que o caso tem e terá nos anais da transmissão eléctrica de longa distância.

 

Oficialmente descartada que de imediato foi a hipótese de um ataque cibernético aos sistemas de controlo eléctrico do Brasil interligado – uma teoria que obteve algum espaço mediático quando o programa 60 minutes da CBS relembrou dois outros blackouts brasileiros (2005 e 2007) alegadamente levados a cabo por hackers –, a lista de possíveis causas deste mega-blackout foi engrossando.

 

Segundo uns, o pandemónio eléctrico deveu-se a condições atmosféricas atípicas (raios e chuvas anormais) num corredor de três linhas 750 kV HVAC entre Itaipu e S. Paulo; segundo outros, terá sido a sujeira que cobria alguns isoladores das linhas e/ou subestações que esteve na origem de uma sucessão de curto-circuitos, havendo ainda uns poucos que se inclinam para a hipótese de um erro humano operacional.

 

Embora as informações oficialmente disponíveis sejam algo contraditórias quanto ao modo como se deslastram as linhas 750 kV (HVAC) – nuns casos refere-se que elas dispararam por acção automática de protecções, noutros casos alega-se que elas foram desligadas por iniciativa do próprio operador -, há uma ou duas questões que, desde logo, me parecem incontornáveis.

 

A primeira é que, apesar de se dispor de potentes alternativas de segurança operacional, por razões de puro economicismo o sistema eléctrico estava sem adequadas reservas girantes regionalizadas (hidroeléctrica e térmica).

No mínimo, isto levou a que, desnecessariamente, a indisponibilidade eléctrica haja sido prolongada por horas tantas que, na circunstância, o que talvez valha a pena seja comparar os custos desta insegurança de fornecimento eléctrico com os eventuais benefícios de uma tão grande aposta nos baratinhos 14 000 MW de Itaipu a carga plena — mas a mais de 900 km de distância dos principais centros de consumo.

 

Já a segunda questão diz respeito aos critérios adoptados na definição das contingências de um sistema, ou, mais propriamente, ao modo como são monitorizadas e geridas as premissas que lhe subjazem.

 

Como dizem, e bem, as autoridades brasileiras, é geralmente economicamente inviável desenhar sistemas de transmissão com base em critérios além da contingência dupla (tipo N-2) e, de facto, a contingência tripla não está actualmente prevista em nenhum dos sistemas de transmissão do mundo, a não ser em casos de especial criticalidade da demanda.

 

Mas o facto é que, em 10 de Novembro 2009, a tripla contingência aconteceu, e o critério N-2 de um dos sistemas eléctricos mais robustos do mundo colapsou—durante horas, o que se viu foi um carnaval de prejuízos.

 

Se, neste caso de linhas de transmissão 750 kV HVAC (Itaipu-S. Paulo), é absurdo equacionar-se um agravar do escalão de contingências N-i,  não deixa contudo de ser imperioso que, em todo o detalhe, se conheçam as razões de tão desgraçada improbabilidade – no mínimo, porque as implicações são muitas, e não só para o Brasil.

 

Dizem alguns que os tradicionais métodos determinísticos que actualmente presidem ao design e operação do sistema eléctrico brasileiro devem ser refinados via cruzamentos estocásticos que, de forma qualitativa, permitam trazer ao planeamento maior e melhor especificidade local quanto a implausabilidades eventualmente menosprezadas.

 

Segundo percebo, estes autores terão muita razão.

Em particular se também se referirem ao comportamento de alguns componentes ditos-menores (isoladores e “pára-raios” p.e.) que, face às novas e não planeadas dinâmicas envolventes (poluição industrial, alterações das condições de pluviosidade, temperatura e/ou descargas atmosféricas) acabam por comportar-se mal ao contaminarem, e por dentro, as deterministicamente boas fundações de qualquer sistema N-2.

 

Some-se a isto stress operacional, crescentes roubos e destruições de material, e o que emerge é uma caríssima coordenação de isolamento em perigo.

 

Curiosamente, vários são os experts sugerindo uma mitigação sui generis.

 

Descartando o uso de graxas de silicone como remédio para linhas de fuga talvez curtas, tais electrotécnicos sugerem a urgente adopção de um equipamento que eu desconhecia por completo: o Chapéu Chinês - um exótico equipamento a ser colocado em algumas secções de linhas e subestações deste crucial sistema 750 kV.

 

O relatório oficial sobre o apagão Brasil Nov 2009 será certamente uma peça fundamental no esclarecimento de questões críticas para a transmissão eléctrica a longa distância, e, segundo espero, incluirá uma análise comparativa do performance dos sistemas DC e AC em presença - e oscilogramas da estabilidade angular destes 750 kV HVAC.

 

E porque actualmente me interessa uma linha de pesquisa centrada sobre o impacto das mudanças climáticas na fiabilidade e custos dos sistemas energéticos, eu estou morto por dar um look aos sistematicamente adiados resultados do inquérito oficial.

 

 

josé lopes

 

jan 2010

 

 

um caso de descontingência  tripla

 

Brasil —Itaipu / S. Paulo 750 kV HVAC

xitizap # 51

Copenhaga, Soros e FMI

um Chapéu Chinês

impactos avulso