xitizap # 37

HCB - olha quem fala

Kariba - fev 12

economicismo hidroeléctrico

por exemplo

ondas de cheias

Zambeze - jan 2008

Zambeze - cronologia 1

 

2007- Cheias Zambeze 2007 / Zambezi floods 2007

 

 

 

Zambeze, Cheias e Megawatts

 

Pela segunda vez, em menos de um ano, torrenciais descargas de Cahora Bassa fustigam o vale do Zambeze semeando caos e miséria. Pela segunda vez também, eu insisto na necessidade de se avaliar o modo como a HCB está a ser gerida hidrologicamente – se bem ou mal, se há ou não imediatas alternativas sustentáveis, se estas catastróficas inundações poderiam ter sido melhor domadas, senão mesmo evitadas.

 

Desde logo repare-se no pano de fundo:

 

. ao contrário de 2006/07, a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) não teve este ano que fazer face a desavenças hidrológicas entre os donos do rio pelo que pôde perseguir tranquilamente a sua curva guia de operação – reforçando-a até com uma defesa de meio metro extra relativamente à cota de entrada na época de chuvas 2006/07.

 

. nesta sua curva guia, que é resultado de um modelo de gestão inalterado mesmo após a inversão accionista, a cota mínima 321 em Janeiro continua a funcionar como o máximo prejuízo de vendas que a HCB se dispõe conceder aos trezentos mil habitantes que povoam o jusante da barragem – mesmo quando cientificamente se antecipam cenários de intensas chuvas precoces.

 

Neste entretanto, eu não duvido que a HCB julgue estar a cumprir o seu melhor plano de negócios, como bem epitoma o recente esfuzio dos USD 300 milhões em 2008 - e se assim dita o plano de negócios HCB, assim terá que se cumprir o Zambeze.

Perseverantemente. Obstinadamente - usando quilómetros cúbicos de descargas concentradas se for caso disso.

 

O problema, ou pelo menos o meu problema, é que eu discordo absolutamente dos critérios que a HCB insiste em usar na modelação dos seus negócios hidroeléctricos.

 

Desde logo porque em situações muito complexas a vários níveis – reassentamentos geralmente mal sucedidos após as cheias de 2007 a somar a dinâmicas climatéricas ainda mal compreendidas p.e. - a Hidroeléctrica de Cahora Bassa, uma empresa que só há 2 ou 3 anos pôde iniciar a sua maturação hidrotécnica e portanto com pouca experiência na gestão de reservatórios hidro-electricamente tensos, se dispõe a arriscar 2 ou 3,000 GWh/ano em receitas-extra antes mesmo de demonstrar já ter compreendido o Zambeze – ou dito de outro modo: et pour cause.

 

Ficasse-se ela pelos nominais 12,000 GWH em 2008, ao invés de tentar bater recordes no poker das receitas megawatticas (16,000 GWh/ano), e talvez pouco houvesse a criticá-la.

 

Infelizmente, e como se tornou de novo indesmentível, cumprir o Zambeze desta HCB voltou a implicar o caos em Janeiro 2008. E, pela segunda vez em menos de um ano, o já esgotado povo do Zambeze volta a ser drenado por avalanches de descargas chegando pela calada da noite - e ainda não chegámos a Fevereiro.

 

O que me remete para a questão central: seria ou não possível melhor domar, ou mesmo evitar, estas catastróficas cheias do Zambeze em 2007 e 2008?

 

Continuo a pensar que sim.

 

Desde logo se se começar por estipular uma curva guia HCB que, ao invés de privilegiar o economicismo hidroeléctrico, coloque a segurança de 300,000 moçambicanos no topo dos critérios hidrológicos.

 

Uma curva guia que, via adopção das restrições geralmente utilizadas na gestão de albufeiras tipo Cahora Bassa, estabeleça a cada momento, e em cada estação, o melhor equilíbrio entre a produção hidroeléctrica e a segurança vital.

Um conflito que é velho como o mundo hidroeléctrico mas que, em larga medida, tem vindo a ser resolvido a favor das populações em quase tudo o que é grande bacia hidroeléctrica.

 

E no caso HCB isto significaria a adopção de três simples medidas:

 

1. Volumes de espera em Cahora Bassa adequados à segurança do vale do Zambeze - o que significa baixar 2 ou 3 metros à cota máxima de entrada na estação de chuvas logo a partir de Novembro (ao invés dos actuais 326, 323 e 321 metros respectivamente em Novembro, Dezembro e Janeiro).

 

2. Restrições severas ao regime de descargas em Cahora Bassa, quer em termos de volume (p.e. máximos de 4500 m3/s incluindo turbinamentos), quer em termos de variação diária entre dias consecutivos - incluindo as tradicionalmente pesadas penalidades de extravasão.

 

3. Promulgação de uma Carta de Riscos Hidrodinâmicos que coabite com a segurança e prosperidade do vale do Zambeze - com especial enfoque na política de reassentamentos populacionais e de protecções das zonas baixas do fértil vale.

 

E porque os culpados não são as vítimas eu espero que, ao invés de se sobre-politizar a tragédia, tal como ocorreu em 2007, se reequacione o economicismo – objectivamente.

 

josé lopes

 

janeiro 28, 2008

… certamente a caminho de um centro de reassentamento

 

 

 

Zambeze, Floods and Megawatts

 

For the second time in less than a year, torrential discharges released from Cahora Bassa fustigate the Zambezi valley spreading chaos and misery.  For the second time too, I insist on the necessity of evaluating the manner how HCB is being hydrologically managed – if well or wrongly, if there are or not immediate sustainable alternatives, if these catastrophic inundations might have been better subdued if not avoided.

 

Let’s start by noticing this background:

 

. contrary to what happened during 2006/07, at the beginning of the current rain season (2007/08) the dam operating company (HCB) had not to face the hydrological dissensions amongst the Masters of the River thus finding itself in a position to quietly pursue its operational rule curve – a rule curve that has been even defensively reinforced by an extra half a meter in comparison with the lake’s elevation 2006/07.

 

. under this HCB rule curve, which is a product of a management model not yet altered after the recent company restructuring, the minimal elevation 321 m a.s.l. still represents the maximum loss of revenues that HCB is prepared to concede to the 300,000-plus inhabitants living downstream of its dam – even if premature heavy rains are scientifically forecasted.

 

Meanwhile, I don’t doubt that HCB thinks that is following its best business plan – a position that was eloquently epitomized by the recent whistling on projected USD 300 million sales for the current fiscal year. And if so stipulates the HCB business plan, so the Zambezi must be executed. Perseveringly. Obstinately. By recourse of concentrated releases of cubic kilometers if the need arises.

 

 

Economicismo:

 

Reducionismo económico que considera que tudo, até a pessoa, deve estar subordinado ao sistema económico.

n.e.

Dados sobre descargas obtidos a partir dos media e DNA. Estimativas de turbinamentos por xitizap com base no liga/desliga Zimbabwe.

 

The problem, or at least my problem, is that I absolutely disagree with the criteria that Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) keeps on using while modeling its hydropower business.

 

For starters because under very complex circumstances at various levels – such as generally unsuccessful resettlements following last year inundations plus a set of climacteric dynamics yet to be fully comprehended – HCB, a company that only started its hydrotechnical maturation period two or three years ago thus relatively inexperienced on managing stressed reservoirs, this very company is prepared to risk 2 or 3,000 GWh/annum on extra-revenues even before having demonstrated its thorough knowledge of Zambezi – or, in other words, et pour cause.

 

Had HCB pursued its nominal capacity (12,000 GWh/y) instead of trying to break sales records on the Megawatt Poker, and perhaps there might have been fewer reasons for criticism.

 

Unfortunately, as it became apparent again, to accomplish the Zambezi under HCB rules repeatedly implies the spreading of chaos. And for the second time in less than a year the common people living on and of the Zambezi were again drained by avalanches of dam releases in the dead of the night – and we aren’t on February yet.

 

So, and back to the central question: was it possible or not to better subdue, or even to prevent, these catastrophic inundations on the Zambezi valley on 2007 and 2008?

 

I keep on thinking that YES, that was possible!

 

For instance by starting with the stipulation of a rule curve for Cahora Bassa that instead of privileging the hydroelectric economicism would eventually place the safety of 300,000 mozambicans at the top of its hydrological criteria.

 

An operational rule curve that through the adoption of restrictions widely used on the management of reservoirs such as the one of Cahora Bassa would establish at each moment of every season the best equilibrium between power generation and vital security on the valley.

 

This is a conflict as old as the hydropower world, but it is also a conflict that, to a large extent, has been resolved in favor of the populace in most of the world great basins.

 

And in the case of HCB this would signify the adoption of three simple procedures:

 

1. To adopt adequate waiting volumes in Cahora Bassa lake – which means to lower 2 or 3 meters the maximum elevation at the beginning of the rain-season (instead of the current 326, 323 and 321 on November, December and January respectively).

 

2. To impose severe restrictions on releases from the dam, both in terms of volumes (p.e. maximum 4500 m3/s including turbinations) and of daily variations (p.e. maximum variations between consecutive days) – including the traditionally heavy fines in case of extravasations.

 

3. To promulgate a Chart of Hydrodynamical Risks that would cohabit with the security and prosperity of the Zambezi valley – with a special emphasis on the policy of resettlements and engineering protections in the lower areas of the fertile valley.

 

And, because the guilt does not rest with the victims, I also hope that, rather than over-politicizing this tragedy as in 2007, one should re-equate the economicism – objectively.

 

josé lopes

 

January 2008

 

…on resettlement mode

 

 

ps – I’m a bit lost in translation. Corrections and betterments are certainly welcome.

 

photograph by Thierry Delvigne-Jean/UNICEF (in nationalgeographic.com)