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Seria necessário mais uma década para que, em 1938, outros poços de petróleo fossem descobertos na Arábia Saudita e Koweit.


Foi quando deflagrou a segunda guerra mundial. Os esforços de prospecção e exploração foram então suspensos, e os poços selados com receio do avanço das forças nazis. Como mais tarde se observou, em 1942 Rommel e o Afrika Korps foram bloqueados em El Alamein... mas a guerra não deixava dúvidas quanto à importância do petróleo. Os submarinos alemães U-boat estiveram mesmo muito perto de cortar o abastecimento naval vindo dos USA para a Europa, e as forças de Hitler por pouco não conquistaram Baku, no Mar Cáspio, a principal fonte de petróleo soviético. E o Japão, com linhas de abastecimento fragilizadas, passou a recorrer a ataques kamikazes que, entre outras coisas, não exigiam combustível para a viagem de regresso.


Por seu lado, Roosevelt sabia que, na altura, os USA se sentavam no grande arsenal que eram os seus próprios recursos petrolíferos.

Os campos petrolíferos americanos, particularmente ao longo da costa do golfo e sudoeste, foram mobilizados para o esforço de guerra e viriam a fornecer 6 dos 7 biliões de barris que os aliados consumiram.


No decurso da sua missão de 1943, DeGolyer visitou a Arábia Saudita, Koweit, Iraque e Irão para avaliar os respectivos potenciais. Regressado a Washington, o geólogo apresenta uma surpreendente conclusão: o centro de gravidade da produção mundial de petróleo está a transferir-se do golfo das Caraíbas para o Médio Oriente e zona do Golfo Pérsico, e assim continuará até que aí se estabeleça firmemente. Mas nem mesmo DeGolyer poderia ter imaginado quão correcta era essa sua conclusão. Na verdada, o Golfo Pérsico fornece actualmente 20 milhões de barris por dia, mais de 3 vezes o que os USA produzem.


E ninguém duvida que os recursos do Golfo Pérsico - a produção mais barata do mundo - são de importância central para a saúde económica do mundo. No seu conjunto, a região fornece quase ¼ do petróleo mundial, a maior parte do qual fluindo para a Europa, e cada vez mais para a Ásia.


Contudo, e nesta mesma altura, os recursos petroíferos existem hoje em maior e mais diversa escala a nível global. E perder isto de vista, é perder de vista o contexto. Muita da actual carregadíssima retórica levar-nos-ia a acreditar que o Iraque é de importância única para o fornecimento mundial de petróleo. O que em termos simples não é verdade. Os recursos iraquianos representam hoje apenas 3% do fornecimento global, e a tecnologia permite disponibilizar novos recursos por formas inimagináveis para a maioria das pessoas. Mais ainda, em termos de consumo existem grandes diferenças regionais. Os USA adquirem 70% dos seus fornecimentos de crude oil ou a partir da sua própria produção, ou dos países seus vizinhos da América do Norte e Sul.


E em contraste com a actual, a crise do Golfo de 1990-91 era mais directamente ligada ao petróleo, e ao ímpeto iraquiano para dominar a região. Em 1990 o Iraque invadiu o Koweit, procurando aniquilá-lo como nação independente. O objectivo de Saddam era, tal como havia acontecido quando ele invadiu o Irão uma década antes, controlar, directa ou indirectamente, uma grande parte dos fornecimentos do Golfo Pérsico e vergá-los aos seus propósitos políticos e militares.


Desta vez, o foco central reside na questão das armas de destruição maciça e no incumprimento por parte do Iraque de mais de meia dúzia de resoluções UN datando de 1991. Existe uma dimensão petrolífera, mas não é a propósito de protectorados de petróleo. É acerca de geo-política e segurança e estabilidade dos fornecimentos do Golfo. E seguramente, um regime Saddam Hussein poderia estar em posição de intimidar a região, manipular fornecimentos e ameaçar a segurança da economia mundial.


E essa ameaça torna-se mais crítica quando se constata que a demanda mundial continua a crescer. Daqui a uma década o mundo poderá estar a consumir 20% mais do que hoje. Ou seja, em 2013, o consumo actual de 77 milhões de barris por dia ultrapassará os 90 milhões.


O principal crescimento virá do mundo em desenvolvimento e em particular da China e Índia. E na medida em que a China continuar a sua notável corrida pelo crescimento económico, o mesmo acontecerá ao consumo petrolífero. Hoje, a China usa 2 vezes mais petróleo do que há 10 anos atrás. É o terceiro maior consumidor mundial e brevemente ultrapassará o Japão, tornando-se o segundo maior. Durante décadas, e inspirada pelo espírito heróico dos trabalhadores no grande campo de petróleo de Daqing, na Manchúria, a China comprometeu-se com o auto-abastecimento. O que se alterou em 1993 - um ano que é, em termos petrolíferos, muito significativo. Porque foi nesse ano que, e por muito heróico que haja sido o espirito, a China passou a não poder contar apenas com o seu próprio petróleo para alimentar uma economia que crescia a 8% ao ano. E o país tornou-se um net importer. E as importações têm vindo a crescer.


Mas de onde virão estes novos fornecimentos ? Esta é uma questão que nos leva de novo ao Golfo Pérsico. Mais a mais, porque a região tem sido creditada com a posse de 2/3 das reservas totais do mundo. Mas, reservas, não são necessariamente sinónimo de produção.


O Irão, encravado em problemas técnicos ... e desacordos políticos, viu a sua produção declinar 40% em 25 anos. A capacidade do Iraque caiu 20% nos últimos 10 anos, e hoje em dia estima-se que levará 2 a 3 anos, e mais de 5 biliões USD, a recuperação do nível de há 10 anos. E muitos mais anos e recursos até que o Iraque possa atingir produções significativamente superiores.


O que contrasta fortemente com a Arábia Saudita que sempre se manteve na vanguarda da tecnologia. Normalmente, este país produz 8 milhões de barris por dia - para além de manter, pelo menos, uma capacidade de reserva de 2.5 milhões de barris que podem ser produzidos como efeito estabilizador, tal como o tem vindo a fazer, primeiro face à disrupção dos fornecimentos venezuelanos, e agora para compensar o shut-down da produção Iraque.


Mas numa base global o que é surpreendente é a diversificação das fontes de fornecimento. Em 1975, o Golfo Pérsico produzia 40% do output mundial de 52 milhões de barris por dia. Hoje, o consumo é 77 milhões de barris por dia. Contudo, o output do Golfo Pérsico só cresceu muito ligeiramente - e daí resulta que hoje apenas represente 30% da produção mundial.


Ao longo dos anos muitas novas fontes têm aparecido, a começar pelo mar do Norte e a faixa do Alaska Norte após a crise petrolífera de 1973.... e hoje em dia, a expansão mais dramática ocorre na indústria petrolífera russa. Nos últimos 3 anos o output da Rússia cresceu 25% e actualmente a Rússia é o segundo maior exportador mundial, apenas ultrapassada pela Arábia Saudita.... a par de um similar ressurgimento que ocorre a sul, no Mar Cáspio e Ásia central. A produção aumenta no Kazaquistão e Azerbaijão. .... e uma outra fonte de petróleo em crescimento será o oeste de África que, por volta de 2006, ultrapassará o Mar do Norte em termos de output.


Mas a verdadeira competição pelas fatias do mercado parece poder vir a travar-se entre a Rússia e o Mar Cáspio por um lado, e o Médio Oriente por outro. E tudo influenciará esta corrida, desde as políticas de investimento dos governos ao activismo local. De momento, a Rússia e o Cáspio empatam com o Médio Oriente - cada um dos lados está hoje a adicionar 4 a 5 milhões de barris por dia.


Por vezes, as pessoas parecem pensar em reservas como se tratasse de uma quantidade fixa de petróleo posta à disposição pela natureza. Mas, de facto, o conceito de reservas é mais elástico, e determinado não apenas pela geologia, mas também pela interacção da economia, política e tecnologias ...


Actualmente, uma importante revolução tecnológica está a desabrochar - conhecida como Doff, o campo de petróleo digital do futuro (Digital Oil Field of Future). O Doff agrupa uma panóplia de informação e tecnologias de controle, mecanismos de sensoriamento remoto, furação inteligente, e instrumentos de medição altamente precisos que tornam a exploração e produção muito mais exactas e focadas. A consequência será a substancial redução de custos. ... o impacto Doff será enorme. Nos próximos 5 anos, Doff poderá expandir as reservas mundiais de petróleo em 125 biliões de barris. Mais do que as actuais reservas provadas do Iraque.


Mas isso será no futuro. Entretanto, e embora quase completamente despercebida, algo de muito importante acaba de acontecer em termos de oferta de petróleo.


No ano passado assistiu-se ao primeiro grande aumento das reservas mundiais desde meados de 1980, data em que, com uma canetada, os principais países do Golfo Pérsico elevaram os seus níveis de reservas provadas em mais de 50%.


Este novo aumento de reservas corresponde a 175 biliões de barris. O que é muito petróleo. Ou seja, mais de metade das reservas provadas do Iraque e 2/3 das da Arábia Saudita. Contudo, estas novas reservas não estão no Médio Oriente, mas sim no Canadá.

Avanços tecnológicos no manuseamento de depósitos de areias petrolíferas na província de Alberta permitiram reduzir para metade os custos de produção e assim, este enorme volume de fornecimento potencial foi contabilisticamente transferido para a coluna de reservas provadas economicamente recuperáveis. E pela primeira vez desde o relatório de Everette DeGolyer ao presidente Roosevelt, passou a registar-se um declínio significativo da fatia de mercado Pérsico no bolo mundial de reservas - de 66 para 57%.


Aqui, a questão é que os fornecimentos mundiais de petróleo não são uma finita soma constante. Pelo contrário, a fotografia é dinâmica e em mudança, e o cenário das reservas continuará a alterar-se. E, se e quando um novo Iraque resolver os seus arranjos e se reintegrar na economia mundial, é mesmo possível que as novas explorações petrolíferas tenham já  aumentado substancialmente a suas reservas, de novo empurrando para baixo a fatia global de mercado do Golfo Pérsico.


O que Everette DeGloyer previu há 60 anos era verdade. Para a economia mundial, os recursos do Golfo Pérsico são um tremendo património estratégico, e uma das bases para o nível de vida do mundo desenvolvido - para além de ser o combustível critico para o crescimento económico do mundo em desenvolvimento. Mas o que também é verdade é que, para quem ande hoje à procura de petróleo, há muitos lugares a onde ir.


Quanto e de onde?

Isso será determinado não apenas pelas doações da natureza, mas também pela tecnologia, economia e, mais do que a maioria supõe, pelas escolhas políticas dos países quanto ao como querem desenvolver os seus recursos, e quanto ao que querem ganhar com a economia mundial.



Daniel Yergin é chairman de Cambridge Energy Research Associates, e autor de vários livros, entre os quais The Prize, the epic quest for oil, money and power (1991), um livro galardoado com o prémio Pullitzer. Um livro que se recomenda vivamente.